E quem não cederia?

João Luiz Sampaio

15 de dezembro de 2010 | 18h56

Fala da personagem Isabela: “Mas não pensem que o Gabriel é um grande vilão e que eu não reconheço as coisas boas que ele fez por mim. Um dia, por exemplo, ele me levou à ópera. Eu nunca tinha ido à ópera, mas a música tem esse poder de transportar a gente para lugares desconhecidos e imediatamente familiares – que nem os cheiros; não é à toa que dizem que música é perfume. Eu adorei a ópera! (A ária “N’est Ce Plus Ma Main” começa a tocar.) Chamava-se “Manon” e era sobre essa heroína, a Manon, e o herói que se conhecem e vivem apaixonados. Um dia, por uma série de circunstâncias, eles precisam se separar. Ela cai na vida, se envolve com outros homens. Ele não aguenta e vira padre. Mas depois de um tempo ela resolve ir buscá-lo e revivê-lo para tudo aquilo que um dia eles passaram juntos, o furacão descontrolado e íntimo disso que chamam “amor”. (A ária cresce; Isabela fala envolvida pela música, como se interpretasse Manon ao mesmo tempo que narra.) Ressentido, ele a maltrata. Mas ela está determinada. Pergunta a ele “não é mais minha mão, que as suas mãos tocam? Não é mais a minha voz? Ela não é para você mais uma carícia, como antigamente? Eu não sou mais eu mesma? Não tenho mais o meu nome? Olha pra mim. Não é mais a minha mão que as suas tocam, como antigamente? Não é mais a minha voz, não é mais a Manon?” (A música cede.) Ele cede. O Gabriel foi embora sem aviso prévio e eu não falei nada disso pra ele, embora tenha a impressão de que ele também cederia.”

Trecho da peça “Música para Cortar os Pulsos”, de Rafael Gomes, em cartaz apenas neste sábado e domingo, no Espaço Capobianco.

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