E o Municipal, para onde vai?

João Luiz Sampaio

30 de julho de 2010 | 13h15

Na última quarta-feira, a Sinfônica Municipal foi a Campos do Jordão para concerto com a pianista Cristina Ortiz, dentro da programação do Festival de Inverno. Relatos dos mais variados chegaram ao jornal, de diversas fontes. Quinze minutos antes do concerto, a pianista ameaçou não entrar no palco, descontente com os ensaios e com o trabalho do maestro Rodrigo de Carvalho. No final das contas, tocou o “Segundo” de Chopin, que dedicou “aos músicos da Sinfônica Municipal”, de acordo com anúncio feito antes do concerto.

Episódios como esse devem ser lidos com cuidado. Um momento de mudanças, como o que o Municipal está vivendo, deixa os ânimos exaltados, em especial quando se leva em consideração a frágil situação trabalhista dos artistas. Da mesma forma, relações entre maestros e músicos nem sempre são cordiais, em qualquer lugar do mundo. Mais: com todos esses atenuantes, não se pode ser leviano e tomar essa situação como base única para julgar o trabalho de Carvalho.

Isso posto, no entanto, é preciso fazer uma ressalva: dizer que tudo vai bem e que as recentes declarações de músicos contra a situação atual são casos isolados, como tem feito a direção do Municipal, é no mínimo um insulto à inteligência do público. E o episódio em Campos do Jordão é prova disso. Do piano, Ortiz deu todas as entradas e manifestou abertamente o descontentamento com o andar do concerto. Se a questão é artística ou política, essa é uma outra discussão; fato é que não está tudo bem. Isso parece claro.

Enquanto isso, se aproxima o ano do centenário. Até agora, as notícias que se tem da programação sendo preparada dão conta de uma montagem de “Lulu”, de Alban Berg, com figurinos de Alexandre Herchcovitch. É sintomático que seja anunciado o figurinista, personagem badalada da moda internacional, e não se diga uma só palavra sobre quem rege, quem canta, quem dirige. Da mesma forma, a imprensa publica hoje que o café do teatro, depois da reforma, será mobiliado com trabalhos dos Irmãos Campana, o que será possível por conta de patrocínio da Votorantim Metais. De novo: interessante, mas longe de ser fundamental.

Uma programação de estrelas é bem-vinda, em especial num ano de comemorações, no qual o teatro pode e deve ser mimado como patrimônio da vida musical e cultural brasileira – e latino-americana. Mas os últimos anos foram de impasse – se a reforma explica a diminuição de concertos, não justifica a falta de relevância artística de boa parte da temporada alternativa montada. A experiência mostra que a festa uma hora termina e aí é justo perguntar: o que sobra? O Municipal será um teatro de repertório? Em que esquema de produção vai funcionar? Vai voltar a ser teatro de aluguel de montagens e conjuntos de fora ou vai criar um plano artístico consistente para seus corpos estáveis? E, se vai, quem estará por trás? Um conselho artístico, como foi dito no começo? Um diretor artístico, como se disse mais tarde? Dizer que está tudo bem – e que não há problemas –, como tem feito a direção até agora, não chega perto de começar a responder essas perguntas.