E agora, o que fazer?

E agora, o que fazer?

João Luiz Sampaio

06 de fevereiro de 2009 | 13h16

Foto de Tasso Marcello/AE

Estive no Rio na semana passada e ouvi muita coisa sobre a Cidade da Música. O complexo cultural, que inclui salas para concertos sinfônicos, ópera e música de câmara, além de cinemas e salas de ensaio e estudo, foi inaugurado em dezembro mas fechou as portas logo em seguida para que as obras fossem finalizadas – o que só deve acontecer depois que as avaliações sobre o custo do empreendimento, pedidas pelo novo prefeito Eduardo Paes, estejam prontas. A questão estaria no custo do projeto do arquiteto francês Christian de Portzamparc, erguido na Barra – em 2004, quando foi iniciada, a obra estava orçada em R$ 80 milhões; hoje, estima-se que serão necessários mais de meio bilhão de reais, oriundos dos cofres públicos cariocas, para finalizá-la.

Não há muito a se discutir sobre a qualidade em si do projeto de Portzamparc, que pretendeu construir a principal referência urbana da região da Barra. Na revista “Piauí” de dezembro, em entrevista a Fernando Serapião, ele fala da maneira como as “formas livres” de seu desenho foram elaboradas canto a canto, com o objetivo de integrar-se à paisagem e de gerar surpresas no visitante à medida em que ele caminha por entre as duas enormes marquises que são a base da estrutura. “O projeto explora o prazer quase infantil de percorrer uma rampa e de olhar a paisagem. É como subir o corcovado ou o Pão de Açúcar para ver a cidade”, diz o arquiteto.

A Cidade da Música, no entanto, está na boca do público, de músicos e especialistas. Já esmaeceu a crítica de que a Barra não seria o local mais indicado para a construção, pela distância com relação ao centro da cidade, afinal, o prédio está lá e não há muito mais a se fazer sobre isso. Ainda assim, há quem diga que o prédio não vai conseguir atrair público e que, com o tempo, expulsará as orquestras e montará programações majoritariamente de música popular – o público da Barra, afinal, não teria o “perfil” do ouvinte da música clássica. Por outro lado, perguntam os defensores do projeto: que perfil é esse e por que ele é tão rígido e imutável assim? Um ponto em comum nos argumentos é a necessidade de se criar estruturas de transporte que facilitem o acesso à Barra e à sala. Outra linha de debates faz referência aos gastos – por que gastar tanto dinheiro com uma nova sala enquanto as duas outras salas de concerto da cidade, o Teatro Municipal e a Cecília Meirelles precisam urgentemente de restauros e de verba para manter suas programações?

Foto de Fábio Motta/AE

A discussão poderia seguir por horas. Mas acho que o que pega mesmo é – que uso será feito da Cidade da Música? A Orquestra Sinfônica Brasileira, que teria no prédio sua sede, deixou claro o interesse em tocar lá, mas diz não abrir mão de sua temporada no Municipal, mais central. Ainda na gestão César Maia já se havia inclusive decidido não dar à orquestra a gestão da sala. Quem, então, seria responsável por montar sua programação? E que programação seria essa? Espaço pensado para a música de concerto e a ópera, a Cidade da Música deve ser espaço exclusivo para essas atividades? Que tipo de projeto educacional pode ser desenvolvido em suas instalações? Símbolo do que há de mais moderno em arquitetura e exigências técnicas de construção, a Cidade da Música acaba sendo também símbolo do velho problema das instituições culturais do País – a ausência de um projeto consistente de atuação e da busca por uma maneira profissional de gestão que afaste os fantasmas da flutuação política e permita a concretização de um trabalho a longo prazo. Até agora, o silêncio sobre o assunto é no mínimo preocupante.

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