Duas orquestras

João Luiz Sampaio

19 de maio de 2009 | 15h02

Eu só reparei o quanto havia sentido falta do Teatro Municipal quando, no domingo pela manhã, estive lá para assistir à Orquestra Experimental de Repertório, comandada pelo maestro Jamil Maluf, interpretando a “Quinta Sinfonia” de Mahler. O teatro, para quem não sabe, está passando por um enorme plano de restauro e modernização; está fechado desde o fim do ano passado e, agora, com a primeira fase completada e a plateia liberada, terá três meses de apresentações, antes de fechar as portas de novo, agora para a reforma do palco.

A retomada dos concertos matinais foi uma das grandes sacadas do maestro Jamil Maluf, que assumiu a direção da cada há 5 anos, depois de mais de 20 comandando a Experimental. O público em nada se parece com as demais platéias da cidade e mesmo com a audiência das noites do Municipal. Há muitos mais jovens, famílias inteiras. É um clima diferente, gostoso, aconchegante. E interpretar as obras com comentários do maestro entre os movimentos, como acontece na série “Concertos Comentados”, inaugurada domingo, é um gesto que só aproxima público e músicos, o nosso cotidiano da criação artística.

A sinfonia ganhou da Experimental uma leitura correta. Mahler não é brincadeira, exige virtuosismo de todos os naipes e, mesmo quando tudo parece estar certo, nem sempre a mágica se completa em uma leitura integrada, coesa. Mas os meninos da Experimental, a orquestra jovem do Municipal, surpreenderam – metais, cordas, madeiras, todos os naipes foram bem trabalhados. E a mão de Maluf é sentida a cada instante da interpretação, segurando e conduzindo os músicos. O resultado final é uma Quinta “nos cascos”, em que você acompanha os músicos compasso a compasso, respirando com eles a possibilidade de recriação de uma música monumental, prazer para quem faz e para quem escuta.

Jamil Maluf foi ovacionado ao fim da apresentação, reforçando o carinho que o público paulistano tem por ele. É preciso reconhecer o trabalho que ele tem feito com esses jovens músicos, que se renovam periodicamente, sem que a qualidade caia um pouquinho que seja – é fato: a Experimental ajuda a formar novas fileiras para as orquestras do país. Mas é preciso também lembrar que, mesmo que em sua gestão como diretor artístico do Municipal, Maluf não tenha tomado decisões sempre unânimes, seja no que diz respeito ao repertório, seja no que diz respeito à escolha de solistas convidados, uma coisa é certa: tudo o que faz parece ter como pano de fundo a certeza da importância do Municipal na vida cultural da cidade.

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No sábado, estive na Sala São Paulo para ver a Osesp. Que concerto! O maestro Claus Peter Flor reinventou a orquestra perante o público paulistano. Com um número reduzido de músicos, interpretou as sinfonias 6, 7 e 8 de Haydn, além de obras de Gabrielli. O brilho das cordas, a clareza nas articulações, os fraseados – a apresentação foi símbolo do que uma orquestra tradicional pode fazer (e bem) com o repertório clássico. E esta semana tem mais. Quinta, sexta e sábado ele rege outro programa, agora com a Sinfonia nº 2 de Suk e o Concerto para Piano e Orquestra nº 1 de Brahms. Solos de Arnaldo Cohen. Nos vemos lá.

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