Duas óperas em busca de um palco

Duas óperas em busca de um palco

João Luiz Sampaio

25 de junho de 2009 | 14h19

No sábado, estive no Espaço Cultural CPFL, em Campinas, para a apresentação de trechos da ópera ‘Yerma’, de Villa-Lobos. Que música! A obra é baseada em texto do Garcia Lorca sobre uma mulher, Yerma, às voltas com a impossibilidade de ser mãe. Escrita nos anos 30, é uma pancada nas convenções sociais da época, no papel que se esperava da mulher. Mas, para além disso, recuperando um tema bastante caro ao poeta, fala da oposição entre as “forças da vida” e a opressão que, no dia-a-dia, nos afasta de nosso destino de liberdade. Ou, como o próprio Lorca escreveu, ‘Yerma’ seria um conto sobre a “a imagem da fecundidade castigada à esterilidade”. E a música de Villa-Lobos? O maestro da estreia americana da peça escreveu, nos anos 70, que a partitura tinha um pouco de Puccini, um pouco de Debussy, um pouquinho de Strauss – e muito Villa-Lobos. Na prática, isso quer dizer que Villa estava bastante consciente do que mais importante se fazia em ópera naquele período, tendência que ele consegue, no entanto, recriar dentro do universo bastante pessoal de sua inspiração. Os duetos entre Yerma e seu marido Juan são impressionantes – e a cena final, onde ela mata Juan e depois assume para si própria que, sem marido, não poderá engravidar e, portanto, acabara de matar seus próprios filhos, é de arrepiar, ainda mais na interpretação da soprano Elaine Morais, que esteve acompanhada do tenor Rubens Medina, do barítono Sebastião Teixeira e do excepcional pianista Marcos Aragoni.

Heitor Villa-Lobos

No dia seguinte, fiquei sabendo, em Belo Horizonte, que o Palácio das Artes, em uma iniciativa digna de elogios, vai produzir outra ópera de Villa, ‘A Menina das Nuvens’. Mas fiquei pensando: e ‘Yerma’? A única apresentação completa da ópera no Brasil foi em 1981 (há na internet uma gravação de qualidade técnica ruim deste concerto no Municipal do Rio, com regência de Mario Tavares). Pouco depois disso, apareceu em uma apresentação da série Vesperais Líricas, do Municipal de São Paulo, com o maestro Luís Gustavo Petri no piano. E, depois disso, nada. Não se trata apenas do resgaste histórico de montar uma ópera de nosso maior compositor – a música é boa, o texto também. Ao que parece, os materiais de orquestra, seja lá onde estiverem, não são muito claros. Pois o que estão esperando órgãos como a Funarte ou a própria Academia Brasileira de Música para levar adiante o projeto de edição da partitura? Lembrei também de um outro título da ópera nacional que, salvo engano, foi encenado apenas uma vez, no Municipal do Rio – ‘Um Homem Só’, de Camargo Guarnieri, com libreto de Gianfrancesco Guarnieri. Conheci o texto da ópera pelas mãos gentis de Cecilia Thompson, jornalista com quem convivi aqui na redação, que foi mulher de Gianfrancesco Guarnieri. Dêem uma olhada no que escreveu, na época da estreia, o crítico Eurico Nogueira França: “Tudo caminha aqui – a própria música – em termos de bom, moderno, vigoroso, avançado teatro. Chegamos a um conceito de ópera brasileira na qual as dimensões teatrais lhe conferem legitimidade irresistível”. Em um momento em que compositores brasileiros têm se dedicado a escrever novas óperas, recuperar marcos passados do gênero é fundamental na criação de uma história da ópera brasileira. Uma história que passa, necessariamente, pelo resgate de ‘Yerma’ e ‘Um Homem Só’, além de tantos outros títulos que devem andar perdidos por arquivos do país. Estamos esperando o que exatamente?

Camargo Guarnieri

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