Dois momentos

João Luiz Sampaio

04 de março de 2009 | 22h08

Não sei se com vocês é assim. Já ocorreu de ouvirem uma música e pensar – “Nossa, já pensou se eu tivesse passado a minha vida inteira sem ter ouvido isso?”. É uma sensação horripilante, que esboça na nossa cabeça a possibilidade de que, por acaso, tivéssemos passado batido por aquilo. A vida, claro, continuaria. Mas, depois daquela música, é diferente, é como se algo se ajustasse – ou desajustasse – dentro da gente. E com o tempo aprendi a curtir essa sensação, que pode também ser um pouco assustadora. Enfim, falo de tudo isso para, na verdade, contar que às vezes essas músicas fundamentais na minha formação se misturam, meio que ao acaso, mas, claro, por algum motivo que foge de nossa percepção mais imediata. Nos últimos dias têm sido assim com “Tristão e Isolda”, de Wagner, e “A Canção da Terra”, de Mahler.

“Tristão e Isolda” completa 150 anos em 2009. Seu fascínio está na mistura de idéias filosóficas e musicais, como se filosofia e arte fossem um só corpo. Narra a história de amor impossível de Tristão e Isolda; ele mata o noivo dela e a leva para casar com seu rei, Marke. Ela, por sua vez, tenta matá-lo – e a si própria – com uma poção da morte que, porém, foi substituída por sua dama de companhia pela poção do amor. Um amor impossível, contra as convenções da época e das relações pessoais de ambos. Na adolescência, lembro de ficar fascinado com a idéia do amor impossível, desse amor que é tão grande que sua realização seria na verdade a traição de sua natureza. É, o romantismo faz cada estrago na nossa cabecinha, mas, enfim… Anos depois, a ópera segue uma das minhas taras. Eu gosto de vê-la como uma janela aberta para a riqueza da alma humana. O dueto de amor do segundo ato é impressionante. Nada acontece, a ópera em si quase não tem ação, que ocorre toda antes que a cortina suba. Na ópera, o que vemos no palco é a mente humana, os conflitos internos, os sentimentos de cada personagem, gritos, suspiros, desejo, excitação, que se transformam em sons de êxtase, em certos momentos praticamente indistintos. Ou seja, o cenário de “Tristão e Isolda” é a paisagem das contradições humanas.E o mais interessante é que, para criar a música para a ópera, para a alma humana, Wagner acabou por criar melodia sem fim. Ele a chamou de melodia infinita. Basicamente, em cada acorde da música, Wagner cria duas dissonâncias, só que resolve apenas uma delas, deixando que a outra ecoe enquanto novo acorde se forma – no final das contas, a música, de uma beleza incrível, é, digamos, uma mistura de certezas e dissonâncias. Para cada certeza, há uma dúvida que persiste em segundo plano, recheando e completando a certeza. A melodia infinita é o homem?

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