Diplomacia musical: maestro sul-coreano ensaia orquestra norte-coreana em Pyongyang

Diplomacia musical: maestro sul-coreano ensaia orquestra norte-coreana em Pyongyang

João Luiz Sampaio

01 de março de 2012 | 21h50

O maestro sul-coreano Myung-whun Chung está na Coreia da Norte desde terça-feira, ensaiando os músicos da Orchestra Unhasu (leia texto da Associated Press). Há anos ele tem tentado promover um encontro entre músicos das duas Coreias, sem sucesso. Desistiu, ao menos por enquanto, da ideia – e resolveu levar os artistas norte-coreanos para a França, onde vão se apresentar com a Orquestra da Radio France, da qual o maestro é diretor. Que impacto concreto pode ter um projeto como esse? É provável que nenhum. Daniel Barenboim, nos últimos dez anos, tem unido jovens músicos palestinos e israelenses em uma orquestra, o que não diminui em nada a tensão entre dois lados. Ainda assim, não custa lembrar que Chung é diretor da Filarmônica de Seul e um dos mais celebrados artistas de seu país – o que é dá um peso simbólico à sua decisão, ainda mais em um momento no qual a Coreia do Norte volta às manchetes por conta de seu poderio nuclear. Chung é embaixador da Unicef e quando esteve aqui no ano passado, com sua orquestra francesa, falamos um pouco do papel social que a arte pode desempenhar. Perguntei a ele em que medida a música seria um instrumento político – ou de transformação. “É uma questão delicada, em especial se queremos fugir do óbvio. A música não ajuda ninguém, mas pode contribuir na vida de qualquer pessoa, acho essa a diferença fundamental. E, com a música clássica, o trabalho não é tão fácil quanto seria em outros contextos. Quando se é uma estrela pop, por exemplo, com fama que corre o mundo, sua presença, sua popularidade já pode ser suficiente. Com os artistas clássicos, a situação é diferente. O que exatamente temos a oferecer ao mundo? A paisagem da música que fazemos, uma paisagem que atravessa o tempo. Que outra música vem se desenvolvendo nos últimos 500 anos, com autores que ainda hoje nos dizem algo de tão importante? O que essa permanência e essa transformação constante pode ensinar? A música clássica pode levar a uma compreensão do que é humano, suas qualidades básicas, vitais, e da maneira como essa humanidade se expressa. Para isso, ela ensina, antes de mais nada, a ouvir. E pode mexer com qualquer pessoa, em qualquer lugar.” Já há na rede quem se refira à decisão de Chung como um equívoco, argumentando que sua presença na Coreia do Norte legitima o regime de Kim Jung-Un, como se perdoasse o autoritarismo, a aversão à democracia e aos direitos humanos mais básicos. Será? A arte não perdoa ou passa por cima das diferenças. Pelo contrário, talvez ressalte exatamente aquilo que o ser humano tem de mais pessoal, irracional e intransferível. Mas, ao mesmo tempo, sugere a possibilidade de enxergamos algo que vai muito além de nós mesmos, oferecendo, por que não, uma nova dimensão do tempo e da existência. E sem isso não há diálogo possível.

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