Dias e noites de verão na música de Berlioz

Dias e noites de verão na música de Berlioz

Em La Côte Saint-André, a revelação de uma jovem mezzo-soprano norte-americana - e tudo o que um ciclo de canções não poderia ser

João Luiz Sampaio

29 de agosto de 2014 | 07h22

 

À espera do ônibus para La Côte Saint-André, na estação rodoviária de Grenoble, cidade nos pés dos Alpes, uma senhora comenta com a amiga: depois de chuva, tempo nublado e baixas temperaturas, enfim um dia de verão. Elas estavam embarcando para acompanhar o último fim de semana do Festival de Berlioz. E a coincidência não as escapou: na quinta, após o dia de muito sol e céu limpo, assistiriam a um concerto cuja atração principal era justamente o ciclo de canções Les Nuits D’été, As Noites de Verão, de Berlioz.

Leia também:

+ Na terra de Berlioz

+ Uma melodia e um Colombo ‘marxista’

+ O tempo, de Beethoven a Messiaen

+ Na França, a nova música clássica brasileira

A obra, escrita a partir de poemas de Théophile Gautier, é um dos pontos altos da criação do compositor. No entanto, o clima solar da primeira canção, Villanelle, que nos fala de uma paixão inocente, é enganoso. E já a partir da segunda, Le Spectre de la Rose, a lembrança do amor se transforma numa reflexão sobre a ausência, sobre a dor da perda inevitável e o desejo de refúgio em uma ilha desconhecida, onde o amor jamais termina, mas é pouco mais do que sonho.

No concerto de ontem, conduzir o público por esse caminho proposto por Berlioz foi tarefa da jovem mezzo-soprano americana Kate Lidsey. Nascida em Indiana, formou-se em Nova York, onde integrou o programa de jovens artistas da Metropolitan Opera House. Expressiva, de agudos fáceis e delicados, graves sólidos, natural na transição de uma região a outra da voz – poucas vezes ouvi com tanta clareza o contraste entre os diferentes estados de ânimo descritos por Berlioz. Pena que, ao seu lado, ela teve uma orquestra (Le Cercle de l’Harmonie, regida por Jérémie Rhorer) burocrática e pouco atenta a sutilezas. No final, num mesmo concerto, uma visão muito clara do que deve – e do que não deve jamais – ser a interpretação desta obra tão especial.

***

O festival entra hoje em seu último fim de semana e a expectativa é grande. Primeiro, porque, depois do ciclo integral das sonatas para piano e violoncelo de Beethoven, o pianista François Frédéric Guy volta à Igreja Saint-André, agora para a integral das sonatas para piano e violino do compositor, ao lado de Tedi Papavrami. E, depois, pelas orquestras. Hoje, Leonard Slatkin rege a Sinfônica Nacional de Lyon; amanhã, no que se imagina será uma noite bastante especial, a Sinfônica de Londres será regida por Sir John Elliot Gardiner (com Gautier Capuçon como solista no concerto para violoncelo de Schumann); e, no domingo, programa duplo: a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo volta a se apresentar, agora ao ar livre, e, à noite, sobe ao palco a Orquestra Jovem Europeia, para encerrar o festival com a ópera A Danação de Fausto (com elenco composto, entre outros, por Anna Caterina Antonacci).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.