Diário do Rio (2)

João Luiz Sampaio

08 de maio de 2010 | 23h04

Apesar do subtítulo Ressurreição, a Sinfonia n.º 2 de Gustav Mahler não deve ser compreendida como hino religioso. Para o compositor, compreender Deus como símbolo de eternidade – e a morte como apenas uma transição – está ligado diretamente ao sentido da vida terrena, à permanência da arte e ao diálogo do homem com a natureza.

Pela primeira vez o compositor emprega a voz em uma sinfonia; e trata os timbres de cada instrumento como parte integrante da estrutura da peça. Por isso mesmo, é fundamental o equilíbrio entre os naipes da orquestra na hora de recriar a dramaticidade da música que contrasta momentos de euforia, perda de energia e temor perante a ideia da morte.

No concerto de quinta, foi satisfatório, desde o primeiro movimento, o equilíbrio encontrado pela Petrobras Sinfônica sob o comando de Karabtchevsky. Em que pesem alguns problemas pontuais de afinação e dinâmica, em especial nas seções finais da obra, são bonitos os efeitos conseguidos nas cordas, durante o primeiro movimento, na construção de um clima etéreo; a ironia no terceiro movimento, que descreve a incoerência entre a moral religiosa e a força da natureza; a delicadeza quase contemplativa do Urlicht; ou a tensão crescente do movimento final.

A energia da interpretação de Karabtchevsky vem da percepção do caráter algo teatral na concepção de Mahler, na maneira como ele retrabalha os temas, fiel à ideia de que a composição se faz a partir de blocos que se reorganizam sugerindo novos significados musicais. Onde está Deus? Onde fica o homem entre a natureza, a vida e a morte? Em conflito com a ideia do fim, Mahler escreve em busca de respostas. Deixa como legado, porém, as perguntas certas.

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