Diário do Rio (1)

João Luiz Sampaio

06 de maio de 2010 | 10h36

Cheguei ontem ao Rio para acompanhar a abertura da temporada das orquestras cariocas; hoje tem Petrobras Sinfônica com a “Sinfonia nº 2” de Mahler e, no sábado, o “Hexameron”, de Liszt, com a OSB. De quebra, amanhã, vou acompanhar a primeira audição de uma gravação inédita de Guiomar Novaes, encontrada no acervo da família. Queria ter escrito antes mas o dia ontem foi corrido, estive no Municipal acompanhando o ensaio da sinfonia e depois bati um longo papo com o maestro Isaac Karabtchevsky, que falou bastante de sua relação com a música de Mahler e fez um balanço da carreira, relembrando outros ciclos Mahler já feitos e suas passagens por outras orquestras, como a do Municipal de São Paulo. Isso tudo vai virar matéria logo, então deixo os detalhes para depois. Na verdade, o post é para contar que, antes de viajar, consegui rever o “Simon Boccanegra”, de Verdi, com Plácido Domingo, que vai ser exibido no fim de semana nos cinemas. Fiquei ainda mais impressionado. Não percam! É certo que a voz de Domingo possibilita a façanha. Mas importa aqui menos o fato dele ter começado a carreira, nos anos 60, como barítono e mais o fato de que, ao longo de sua trajetória, a escolha de papéis foi respeitando a evolução natural da voz, que foi ganhando cores mais escuras. E, tecnicalidades à parte, impressiona o seu desempenho. Domingo é um fenômeno. Às vésperas de completar 70 anos, sua voz mantém o frescor e a energia. A região mais aguda mantém o brilho de outras épocas e os graves ganham ressonância surpreendente. A atuação é comovente, recriando todo o conflito do doge de Gênova, entre o dever político e o papel de pai. Aliás, estou cada vez mais fanático por Simon. Acho que tem a ver com essa oposição entre o indivíduo e a sociedade, que é uma das marcas da obra verdiana, sim, mas que ganha força em especial nas óperas que dedicou a tramas políticas como é o caso de Simon ou do Don Carlo. Ambas pertencem à fase madura do compositor – no caso de Simon, a revisão da partitura foi feita por um Verdi já completamente à vontade no manejo do drama musical, com a ajuda do libretista Arrigo Boito, que reescreveu algumas cenas, resolvendo problemas textuais da primeira versão da ópera. Assim, momentos como aquele em que Simon conclama plebeus e nobres a se unirem em torno do objetivo da paz passaram a ser símbolo da união entre texto e música na busca pelo drama verdadeiramente musical. E quando na regência está um mestre como James Levine… bom, não percam, e me digam o que acharam.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: