Diário de viagem (1)

Diário de viagem (1)

João Luiz Sampaio

29 de setembro de 2009 | 14h09

É verdade que o teatro não é mais exatamente o mesmo – um incêndio derrubou boa parte do Teatro La Fenice nos anos 90 e o que temos hoje é a réplica do original. Mas… faz diferença? Nenhuma. A história de um prédio é naturalmente também a história de sua ocupação. E estar ali, na frente do La Fenice, é encostar de pertinho em lances decisivos da história da ópera. Cheguei desavisado. Um dia antes, em Milão, havia visitado o Scala de Milão. A temporada ainda estava parada, mas deu para conhecer a sala e os bastidores do teatro. A cabeça fica tentando lembrar todos os nomes que passaram por ali, os compositores, as óperas estreadas, os maestros, os cantores, mas dá pau no sistema e não tem como acessar todos os arquivos. Então a gente fica meio anestesiado. Até que, passeando pelo museu, vai reencontrando os nomes, as histórias, as lendas, os mitos. No La Fenice, fui procurando sensação semelhante. Demorei para encontrá-lo no labirinto que é a cidade. E quando dei de cara com o prédio, ali encravado no meio da ilha, a primeira imagem foi a do cartaz na porta: “La Traviata”. Será que tem récita? Tinha, com um elenco que eu não conhecia e regência de Myung Whun Chung. Comprei o ingresso na hora. E só depois fui lembrar que o último trem de volta para Milão, onde estava hospedado em casa de amigos, era às oito da noite. Paciência. O mais importante, naquele momento, era o ingresso na mão.

Uma das entradas do Teatro La Fenice/Reprodução

A “Traviata” estreou no La Fenice e as palavras não dão bem conta da sensação de poder assistir a uma produção ali, no mesmo auditório. Curioso, no entanto, é que Veneza para mim, desde que o trem deixou a terra e a água se espalhou pelos dois lados, o que me invadiu a mente foi o terceiro ato do “Tristão e Isolda”. Há, claro, o balanço pesado e vagaroso das ondas na partitura de Wagner, a associação é imediata. Wagner morreu em Veneza. Mas não é só isso. Há algo de mágico – uma magia densa, nebulosa, ocre – na cidade. E também no recanto onírico em que Tristão delira e, à beira da morte, imagina o retorno de Isolda. Essa alternância entre real e imaginário, entre ilusão e vida, morte e delírio, perpassa toda a música daquele último ato. E de alguma forma, ao menos na minha cabeça, também seguiu cada viela, cada caminho de Veneza, em seus recantos mais escuros e nas multidões luminosas. Na madrugada deserta, a companhia foi o solo do corno inglês, emulando o movimento das águas. E, no amanhecer, o fluxo da mente.

Sentei sobre o fosso, via o palco de lado, e o regente de frente. Por onde começar? O som da orquestra do La Fenice é impressionante. Esses músicos são alfabetizados no idioma da ópera, cada nota, cada frase, cada inflexão, tudo respira teatro – e há momentos em que a Traviata ressurge fresquinha no ouvido. E Chung é um espetáculo à parte, regendo sem partitura, com elegância e economia de gestos, comunicando-se à vontade com a orquestra. Não guardei o nome dos cantores e precisei agora recorrer à internet (Gianluca Terranova, tenor; Giovanni Meoni, barítono). Nada de muito especial, é preciso reconhecer. Corretos, com um ou outro maneirismo chato, mas corretos. A produção é de Robert Carsen, moderna, Violeta como uma prostituta viciada em drogas, tão envolvida com o dinheiro quanto com o amor. Mas o gênio é Verdi – que essa música continue tocando a gente desta forma tão espontânea, é incrível.

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