Diário de Salzburg: tradição, futuro – e a casa de Mozart

João Luiz Sampaio

21 de agosto de 2010 | 16h25

Chegar em uma cidade como Salzburg deixa minha cabeça maluca, viajando vertiginosamente entre passado, presente e, por que não, futuro. Não dá para passar em frente da Casa do Festival e não pensar em tudo o que já foi realizado ali, em todos os artistas que passaram por este palco – e o que ainda vão passar, levando a uma reflexão sobre como se transformou o mundo dos concertos ao longo das décadas. E, de repente, damos de cara com a Praça Herbert Von Karajan; seguimos mais um pouco, a via Toscanini. É como se aquela pilha de discos que temos na estante, com o selo do festival, começassem a tocar todos ao mesmo tempo na nossa cabeça, criando uma música indistinta, caótica e extremamente familiar. E, ao mesmo tempo, tudo é novo. Não seria esse mesmo, afinal, o sentido da tradição?

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A ideia era só caminhar um pouco no final de tarde de temperatura agradável, o sol se pondo ao fundo da paisagem cortada pelo rio Salzach. Mas, depois de uma salsicha com cerveja local no Alter Markt, dei de cara com a Mozart Gebursthaus – a casa em que nasceu Mozart. Não deu para resistir e entrei correndo. Você sobe ao terceiro andar e, algumas salas depois, a placa, discreta, avisa: quarto do nascimento. Vai parecer absurdo, eu sei: mão nem sei o que sentir em um lugar como esse! Os sentimentos são tantos e tão diferentes que fico meio perdido e deixo de articular qualquer percepção – parado, absorvendo, absorvendo. Mas parei frente à janela e ali fiquei fascinado com a paisagem angulosa que ela revela, muros, paredes entrecortadas, um pequeno pátio, de onde hoje chega um cheiro forte de gordura, que vem dos fundos de um restaurante no prédio ao lado. Ali cheguei perto de enxergar o pequeno Mozart. Será que ele corria por ali? Será que brincava? E me dei conta de que, na verdade, por mais que se ouça sua música e se conheça os locais por onde passou, o que somos capazes de entender da genialidade daquela cabeça é realmente muito pouco. Enfim, nem sei por que me marcou tanto esta imagem. Mas com certeza será difícil ouvir sua música a partir de agora sem ela.

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Andei distante do blog. Não gosto de fazer isso, mas as últimas semanas foram corridas demais. Além do trabalho na redação e da participação em um interessante simpósio sobre ópera promovido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (sobre o qual ainda pretendo escrever), estou terminando de escrever, com a jornalista e amiga Luciana Medeiros, um livro sobre o violoncelista Antonio Meneses. A notícia já saiu em alguns cantos, então posso contar para vocês do projeto. No começo do ano, estivemos com o Antonio durante cerca de um mês, o que nos rendeu dezenas de horas de entrevistas sobre sua vida e suas ideias a respeito de música. Desde então, temos trabalhado em cima desse material. O livro sai agora em outubro, pela Algol, com um disco gravado especialmente por ele para o lançamento. Estamos colocando os pontos finais no texto, já sentindo falta do projeto. Mas outros virão. O fato, enfim, que a rotina aos poucos vai voltando ao normal e pretendo estar por aqui com mais frequência.

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Fico aqui uma semana. Serão dias agitados, com mais de dez atrações entre óperas, concertos e recitais. Amanhã, Don Giovanni; na segunda, Romeu e Julieta com a Netrebko; tem Elektra com Waltraud Meier; Filarmônica de Viena com Eschenbach, Concertgebouw com Mariss Jansons, Filarmônica de Berlim com Simon Rattle; Orfeu e Eurídice com Riccardo Muti; canções de Schubert com Jonas Kaufmman. Ao longo dos dias, vou dando notícias para vocês. Ah, e prometo voltar à casa de Mozart – e, quem sabe, contar algo sobre ela que faça um pouco mais de sentido. Ou não.

P.S. Já estava esquecendo. Fiz várias fotos mas trouxe o cabo errado e não consegui passar as imagens para o computador. Amanhã vou tentar resolver isso e então posto as imagens aqui.

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