Diário de Salzburg: Max Ernst, amor, realidade… só um banco

Diário de Salzburg: Max Ernst, amor, realidade… só um banco

João Luiz Sampaio

25 de agosto de 2010 | 18h54

floresta

No alto do Münchberg. De um lado, a cidade; de outro, a floresta. Entre eles, museu, exposição dedicada a desenhos do surrealista Max Ernst. Em cada um deles, a realidade é duplicada e retrabalhada, um jogo de espelhos em que o reflexo é representação do inconsciente do artista. Subverte-se toda ideia de um pensamento lógico, de causa e efeito. A arte da colagem, ele explica é a exploração sistemática do encontro artificialmente provocado – ou resultado de pura coincidência – de duas ou mais realidades em um espaço aparentemente inapropriado – e dos fragmentos de poesia criado pela proximidade entre elas.

Essa percepção de realidades distintas friccionam vai e volta na minha cabeça, em especial com toda essa música à minha volta. Romeu, Julieta, Orfeu, Eurídice, Don Giovanni, Dona Elvira, morte e desejo. Cada ópera, cada compositor, tenta organizar a ideia do sonho do amor em uma história com começo, meio e fim. Isso é de alguma forma necessário. Mas elas juntas criam uma bagunça enorme. Talvez da fricção entre elas é que surge alguma poesia. Eles falam de amor. Amor, hoje, talvez seja fricção. Embate de realidades, em mundo que não é mais do que projeção de imagens desconexas em busca de um sentido. Única poesia possível?

Desço o monte pela escada íngrime que corta a pequena floresta e me deparei com um banco velho de madeira, desafiando o tempo sozinho no meio do nada. Mais Max Ernst, em 1962, “Tissues of Truth and Tissues of Lies”. “O que é uma floresta? Sentimentos mistos na primeira vez em que ele entrou em uma floresta: prazer e opressão (…). O incrível prazer de respirar livremente no espaço aberto, mas ao mesmo tempo a ansiedade de ser preso por árvores hostis que o cercam. Dentro e fora, livre e aprisionado.” Schoenberg, na mente aparece o Erwartung, um corpo no meio da mata, música, música, canto. Vertigem. Só um banco.

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