Diário de Salzburg – Don Giovanni, mortalidade e desejo

João Luiz Sampaio

22 de agosto de 2010 | 19h58

Christoper Maltman como Don Giovanni/Divulgação

Christoper Maltman como Don Giovanni/Divulgação

Diz a piadinha que, na visão de Mozart e do libretista Lorenzo Da Ponte, Don Giovanni era um péssimo conquistador – afinal, ao longo de quase três horas de ópera, o personagem tenta, tenta, mas não pega ninguém. O diretor Claus Guth resolveu o problema na montagem que dirigiu para o Festival de Salzburg, que assisti hoje à noite na Haus für Mozart, palco que faz parte do complexo de teatros do evento. Logo na primeira cena, quando mata o comendador, pai de Dona Anna, a quem tenta conquistar, Don Giovanni é ferido. Passa toda a ópera sob o efeito da dor do ferimento. Não está, portanto, em sua melhor forma. Justo, então, que não consiga conquistar nenhum de seus alvos. Não há nenhuma alusão a um ferimento de Don Giovanni em Mozart. Mas essa liberdade está no cerne da concepção do diretor. É claro que a piadinha nem de longe é a motivação de Guth. O recurso, na verdade, se presta à defesa daquilo que, em sua concepção, é a mensagem que o compositor quis passar na obra – o que pode ser extravazado para uma percepção mais ampla de todo o ciclo de óperas com libreto de Da Ponte, nas quais, para Guth, que as está montando ano a ano aqui em Salzburg, estão as ideias principais de Mozart a respeito do ser humano.

Em “As Bodas de Fígaro”, diz ele, “estão testadas todas as possibilidades de Eros de maneira divertida e sem julgamentos, ainda que possam ser dolorosas”; em “Cosi Fan Tutte”, “o que era diversão vira cinismo e as possibilidades vistas nas Bodas agora são previsíveis e clichês”. Já em “Don Giovanni”, diz o diretor, o tema é a obsessão – e Tanatos, o deus da morte, entra em ação. “Eros não se revela de maneira divertida, mas desenvolve uma luta poderosa, densa, em direção ao movimento, à ação”. Em outras palavras, Don Giovanni está fugindo da morte – e quer extrair da vida tudo o que for possível. O que a gente vê no palco, portanto, muda de figura: – a luta de Don Giovanni não é pelo puro prazer da conquista mas, sim, uma obsessão pela relação entre desejo e mortalidade. O conceito me parece estimulante, mas traz algumas consequências – o tom de comédia se esvai e dá lugar a um sentido trágico que domina toda a cena e leva a andamentos mais lentos e pesados, em especial nos recitativos. O palco se transforma em um espaço lúgubre, uma floresta no meio do nada, que vai sendo desconstruída com o passar das cenas e no qual o texto de Da Ponte perde um pouco da espontaneidade e ganha cores de absurdo. Ainda assim, oferece novas camadas de leitura para um personagem fascinante, do qual já se escreveu e falou tanto. E isso me parece bem estimulante.

As escolhas cênicas redimensionam o espetáculo também vocalmente. São todas vozes poderosas, grandes, importantes. Mas entram também no universo de absurdo a que se propõe o diretor. Christopher Maltman fez Don Giovanni; Erwin Shrott foi Leporello; Aleksandra Kurzak cantou Donna Anna; Joel Prieto foi Don Antonio; Dimitri Ivashchenko, o Comendador; Anna Prohaska, Zerlina; e Adam Plachetka, Masetto. A única leve decepção, para mim, foi a Elvira de Dorothea Roschmann – leve demais, sofrendo nas regiões mais graves, ainda que no meio e no alto seja capaz de criar belos coloridos. Boa regência de Yannick Nézet-Séguin à frente da Filarmônica de Viena. Em tempo – o diretor optou pela versão de Viena da ópera, ou seja, sem o final moralizante entoado pelos personagens depois que Don Giovanni é tragado pelo inferno.

*** Rápidas

– Você está sentado em um restaurante ao ar livre, na praça em frente do teatro, e, de repente, alguém se levanta da mesa ao lado e pede para usar a sua mostarda – e você se dá conta de que se trata de ninguém menos que o barítono Mathias Goerne, que amanhã faz recital aqui com Christoph Eschenbach.

– A montagem da “Elektra”, de Strauss, é o assunto do festival – conversei com pessoas que já estão aqui há algumas semanas e todas dizem que foi o que de melhor se fez em ópera este ano. Estou curioso, vou ver a montagem só no sábado. Uma coisa é fato – a Unitel Classics resolveu na semana passada gravar a produção em DVD e hoje os caminhões de equipamentos de filmagem já estavam estacionados ao lado da casa do festival.

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