Diário de Salzburg: cancöes de morte e vida

João Luiz Sampaio

29 de agosto de 2010 | 06h59

Os últimos dias foram corridos, com tantos concertos, que acabei näo conseguindo manter o ritmo de postagens por aqui. Depois do Bruckner incrível de Haitink, na noite de sexta vi o concerto da Orquestra do Concertgebouw de Amsterdä, com Maris Janssons. Rosana pergunta como foi o baixo Ferruccio Furlanetto, que interpretou com eles as Cancöes e Dancas da Morte, de Mussorgsky, na orquestracao de Shostakovich. A voz, claro, já demonstra os desgastes da idade. Mas a expressividade parece que só ganha com o tempo – mesmo sem falar russo, acompanhando a traducao para o ingles encartada no programa, dava para saber exatamente onde ele estava, tamanha a capacidade de criar climas e atmosferas vocais diferentes a partir das sugestoes de um texto carregado de imagens fortes. Shostakovich explicava seu interesse nessas cancöes, a ponto de orquestrá-las, näo por uma fascinacäo pela morte mas, sim, pelo terror que nele provocava a banalizacäo do fim da vida nas maos da política. A morte, diz em uma carta, é inevitável. Mas inconcebível é ve-la nas maos de agentes de terror. Talvez por conta disso, seja justo imaginar que ao falar de morte, Mussorgski e Shostakovich estavam na verdade discutindo o valor da vida.

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