Diário de Manaus (2)

João Luiz Sampaio

24 de abril de 2010 | 18h57

Que ópera! Acompanhei a estreia ontem de Yerma, de Villa-Lobos. A gente fala, fala, fala sobre o compositor e, de repente, estamos diante de uma obra que, primeiro, nada tem a ver com o que se conhece dele; e, segundo, é fascinante, bem estruturada musical e dramaticamente. O libreto é baseado na peça de mesmo nome de Federico Garcia Lorca. “Yerma” quer dizer “árida” e a ópera a acompanha em seu desejo não realizado de ser mãe. Lorca, na verdade, está colocando o indivíduo em oposição à sociedade e seus valores cristalizados. E, nesse sentido, o texto se torna ponto de partida para discutir desejo e culpa. Talvez porque siga linha a linha da peça, Villa-Lobos cria uma ópera bastante eficaz dramaticamente – ao contrário, por exemplo, do que acontece em “A Menina das Nuvens”, na qual a cena, em especial no segundo ato, se arrasta demais. E musicalmente ela está muito mais próxima de Puccini e Strauss do que do Villa do início da carreira, que tanto investigou o folclore brasileiro. Se ele aqui aparece, é sempre de maneira indireta e simplesmente porque é parte – e apenas uma entre tantas – da inspiração do compositor. O Villa de Yerma parece extremamente à vontade com a linguagem da ópera e cria um conjunto de cenas extremamente contrastante, do lirismo à angústia e o desespero. Há grandes papéis. E o mais especial, sem dúvida, é o de Yerma, vocalmente difícil, que leva a soprano a todo instante de um extremo a outro do registro (não por acaso, três cantoras recusaram o papel). Sorte nossa: Eliane Coelho deu espetáculo, mostrando porque é a grande soprano brasileira. Yerma, em que pese alguns problemas de orquestração, às vezes pesada demais, tinha tudo para estar presente no grande repertório, sendo feita mundo afora, assim como Puccini e tantos outros compositores. De cara, ainda sob o impacto dá música, dá para dizer que é, com certeza, uma parada importante na trajetória da ópera no século 20. Mas, se no Brasil, terra do compositor, ela foi montada só agora na íntegra, mais de 50 anos após ser escrita, o que mais se pode esperar, não?

PS: Por problemas técnicos, os comentários feitos pelos leitores do blog não estão aparecendo. Eu consigo ler no servidor os comentários da Claudia, por exemplo, que está compartilhando suas interessantes visões sobre “Yerma”, mas não consigo fazê-los aparecer. O pessoal da técnica informa que já está trabalhando nisso e que logo o problema será resolvido. Vamos aguardar.