Diário de Manaus (2)

Diário de Manaus (2)

João Luiz Sampaio

05 de maio de 2011 | 18h03

MANAUS – Em uma das cenas mais fortes da ópera “Diálogo das Carmelitas”, a madre superiora questiona em violento delírio, pouco antes de morrer, o sentido de sua vida de devoção, a existência de Deus e o significado da morte. A passagem oferece uma possibilidade de leitura para a obra, que narra a história de irmãs carmelitas forçadas, em meio à Revolução Francesa, a abandonar o hábito, sendo levadas à forca. O que teria atraído nessa trama o compositor Francis Poulenc e o escritor Georges Bernanos, autor do roteiro que acabaria se tornando o libreto da ópera? É bem provável, na Europa do pós-guerra, que a sensação de quebra de certezas e a oposição entre liberdade individual e vida em sociedade, além, claro, do forte caráter religioso dos autores. Na sucessão de cenas criadas por Bernanos, tudo é intenso, dos questionamentos de Blanche ao procurar o convento à cena final, passando pelos conflitos individuais das irmãs. Por isso mesmo, é acertada a decisão do diretor William Pereira de abrir mão de toques épicos em nome de uma concepção que flerta com o minimalismo, trabalhando em cima de cenários funcionais que ressaltam de modo sensível o drama. Sua concepção nasce da música e se transforma em teatro. Por sua vez, o maestro Marcelo de Jesus retira da Amazonas Filarmônica todo o seu potencial expressivo, em uma leitura eficiente na criação dos momentos centrais do drama e permitindo aos cantores que explorem a riqueza vocal de seus papeis. O elenco, homogêneo, foi responsável por grandes momentos de canto na récita de domingo, com destaque para a meio-soprano Denise de Freitas e as sopranos Isabelle Sabriè, Gabriella Pace, Michelle Cannicioni e Ruth Staerke, como a madre superiora. Entre os homens, o tenor Flávio Leite, de timbre bonito, soube recriar com habilidade a figura do irmão de Blanche, preso entre o apego aos valores em decadência da classe dominante e o carinho pela irmã, a quem quer proteger.

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