Diário de Manaus (1)

João Luiz Sampaio

05 de maio de 2011 | 18h09

MANAUS – No coração da capital amazonense, o Clube Ideal forma ao lado do Palácio da Justiça e do Teatro Amazonas um pequeno eixo de memória da Manaus da passagem do fim do século 19 para o 20, alimentada pelo auge do comércio da borracha. Ao longo de décadas, foi palco de festas, encontros, apresentações de orquestras populares. Na manhã de segunda-feira, no entanto, era outra a trilha sonora vinda de seus salões. Acompanhada ao piano, a soprano Eliane Coelho interpretava o primeiro ato de Tristão e Isolda, de Richard Wagner, observada de perto pelo diretor André Heller, acertando os detalhes da montagem que estreia no dia 19 e é o destaque da edição deste ano do Festival Amazonas de Ópera.

A cena seria inusitada se Manaus não tivesse, ao longo dos últimos 15 anos, se tornado o principal polo produtor de ópera do País. Em sua 15.ª edição, o Festival Amazonas deslocou o foco do gênero da região sudeste. E o fez, entre muitas produções, justamente por meio da obra de Wagner – a interpretação da tetralogia O Anel do Nibelungo, a primeira produzida inteiramente no País, consolidou a fama e deu visibilidade internacional ao evento. Fazer Tristão e Isolda seria uma evolução natural – e é um sonho antigo do diretor artístico, o maestro Luiz Fernando Malheiro. Faltava um ensejo, oferecido agora pelo aniversário de 15 anos do evento.

“O primeiro ato se articula em torno de um espelho”, explica o diretor André Heller, responsável pela encenação da ópera, enquanto cruza o Largo de São Sebastião em direção ao ensaio. “É como se os demais personagens fossem representações de elementos da personalidade de Isolda, que se torna a figura central. Aliás, quando se tem uma cantora como Eliane Coelho no elenco, temos mesmo é que aproveitá-la, não?”, brinca.

A 15.ª edição do Festival Amazonas começou na semana passada com duas novas produções: Suor Angelica, de Puccini, e Diálogo das Carmelitas, de Poulenc. A temática religiosa aproxima os títulos, mas os espetáculos apontam para dois momentos distintos da história do evento.

“Era um teatro secular que, a despeito de sua grandeza, vivia até então mais de memória da belle époque que de arte”, anota o secretário de Cultura do Amazonas Robério Braga, no cargo desde o nascimento do festival, quando se refere ao Teatro Amazonas. Foi com esse intuito que nasceu a Amazonas Filarmônica e, em seguida, o festival de ópera – tentando esboçar uma nova realidade na produção cultural do Estado.

Isso levou à necessidade de um equilíbrio nem sempre fácil de alcançar, entre produtores e artistas de outras praças e forças locais, que não estavam acostumadas com as demandas específicas de um evento do porte de um festival de óperas. Ao longo dos anos, no entanto, uma das consequências principais do evento foi começar a estabelecer uma nova cultura operística e musical em Manaus. “Muitos cantores da nova geração do canto lírico brasileiro tiveram suas primeiras oportunidades aqui e muitos cantores renomados e com carreiras já consolidadas nos prestigiaram”, diz o maestro Luiz Fernando Malheiro, diretor artístico do Festival Amazonas e da Amazonas Filarmônica, criada em meados dos anos 90 por Júlio Medaglia e, então, composta principalmente por músicos vindos do Leste Europeu. “Por outro lado, muito se alcançou no âmbito social quando conseguimos trazer toda a produção para Manaus, com uma central técnica das mais importantes no cenário brasileiro hoje”, completa.

É nesse contexto que se dá a importância da produção de Suor Angelica, que levou ao Teatro Amazonas os músicos da Orquestra Experimental da Amazonas Filarmônica, composta por alunos e jovens músicos formados, em sua maioria, por artistas da orquestra profissional, professores do Liceu de Artes e Ofícios Claudio Santoro; e jovens cantores amazonenses, uma primeira “geração local”, pode-se dizer, a chegar ao palco depois da criação do festival.

O resultado ainda é desigual. Sob regência do jovem maestro argentino Federico Victor Sardella, a Orquestra Experimental ainda busca uma identidade sonora mais sólida – e a direção cênica de Maria Lúcia Gurgel, aluna da Academia de Ópera de Verona, na Itália, não consegue quebrar o caráter estático da narrativa em um ato sobre a mulher que, após ser separada do filho, busca refúgio em um convento onde, anos mais tarde, será comunicada da morte da criança, resolvendo então tirar a própria vida, contrariando toda a doutrina que jurara defender.

Mas, no conjunto, a importância da iniciativa fica evidente nas palavras de um personagem como a soprano francesa Isabelle Sabriè, que também participou da produção da ópera de Puccini. Ela esteve em Manaus pela primeira vez em 2009, a convite do festival. E não voltou mais para a França – a não ser para acertar os detalhes da sua mudança para a capital amazonense. “Foi o chamado da selva”, ela brinca, sorrindo, enquanto conversa com a imprensa à mesa de uma pizzaria ao lado do Teatro Amazonas. “Ajustes sempre podem ser feitos, claro. Mas, apenas 15 anos depois de criado um festival em uma praça que havia muito tempo não se dedicava à ópera, poder levar ao palco toda uma produção de uma ópera complicada como Suor Angelica, praticamente só com artistas locais, é uma grande conquista. Há vozes muito interessantes no elenco, talentos a serem observados”, diz. Isabelle – vencedora do Concurso de Canto Plácido Domingo de 1994 e dona de uma importante carreira internacional, com gravações realizadas em praças como Paris, também é compositora. E conta que tem trabalhado em peças complexas, nas quais busca identificar um sentido rítmico coerente nos diversos ruídos da selva amazônica. O que ela sugere, basicamente, é a existência de uma lógica especial que se compõe a partir de diversos elementos. Quinze anos depois, o mesmo poderia ser dito do Festival Amazonas.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.