Diário de Belo Horizonte: anotações sobre a Cia. Brasileira de Ópera

João Luiz Sampaio

25 de junho de 2010 | 15h13

É auspiciosa a criação de uma companhia de ópera que se proponha a percorrer o Brasil – nessa primeira etapa serão 15 cidades –, em especial com apoio do Ministério da Cultura, que raramente costuma demonstrar interesse pelo gênero. É preciso, porém, certo cuidado com a avalanche de declarações em torno do projeto, que para alguns seria a solução para os problemas da ópera no Brasil, redimensionando a atividade do gênero em território nacional. A médio e longo prazo, a companhia pode sim gerar novos focos de produção; da mesma forma, ao empregar cantores de maneira regular e duradoura (o que ainda não aconteceu), pode ajudar a descobrir e formar talentos em um campo no qual é bastante difícil iniciar uma trajetória. Os grandes e pequenos teatros continuam, porém, padecendo de velhos problemas, como a necessidade de um modelo profissional de gestão, uma melhor relação com os artistas e a criação de um método de produção menos perverso, que permita temporadas mais amplas, atingindo maior número de pessoas. A Cia. é um projeto interessante. Como existem outros. Quem sabe um dia todos possam dialogar e discutir o cenário como um todo a partir de um olhar profissional sobre aquilo que cada um produz – e poderia produzir. Nesse sentido, é bom ouvir o ministro Juca Ferreira falar em novas iniciativas a serem anunciadas em breve. Vamos esperar e cobrar.

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O espetáculo apresentado na quinta-feira, em Belo Horizonte, é divertido e inventivo. A produção é simples, pensada no contexto da itinerância. Quem recebe o público é um Rossini às voltas com a composição da ópera. O maestro se posiciona e os músicos avisam: não há partituras. Ele sobe então ao palco e pressiona o compositor, que acaba lhe entregando as páginas soltas que são distribuídas para a orquestra. A ópera então pode começar. Rossini é uma figura animada, projetada em um enorme telão, que faz as vezes de cenário para a montagem. É isso mesmo: a história é narrada em um desenho animado, com o qual os cantores contracenam. A concepção é de Joshua Held, que cria um artifício interessante – é o próprio Rossini que interpreta todos os personagens, travestido de acordo com a personalidade de cada um. E coube ao diretor cênico Pier Francesco Maestrini formular a relação entre o mundo real do palco e a fantasia da animação, buscando um todo integrado. O traço de Held cria uma mistura de Tom e Jerry, Papa Léguas e Monty Python. Às vezes, é politicamente incorreto; em outros momentos, esbarra no nonsense. No geral, funciona e diverte – mas, em especial no segundo ato, força um pouco a barra, trazendo à cena alienígenas, Darth Vader e Godzilla, provocando riso, sim, mas criando um pastiche que tira um pouco da organicidade da narrativa. Musicalmente, este é um “Barbeiro” correto, com regência teatral de Neschling. O elenco, encabeçado por Leonardo Neiva, Luciano Botelho e Anna Pennisi, é homogêneo e eficiente vocal e cenicamente. O destaque da noite, porém, foi o baixo Pepes do Vale como um impagável Bartolo, preciso no tempo da comédia e nos usos que faz das possibilidades expressivas da partitura.

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Sobre o futuro, ainda há algumas incógnitas. O projeto buscou captar R$ 14 milhões, mas conseguiu apenas R$ 10 milhões. Os números sugerem um apoio estatal decisivo. Dos R$ 10 milhões, metade foi dada por meio da Lei Rouanet por duas empresas estatais – Petrobras e Banco do Brasil –; a outra metade foi fruto de investimento direto do Ministério da Cultura, por meio do Fundo Nacional de Cultura. O apoio do governo, dizem o maestro Neschling e o produtor José Roberto Walker, continuará sendo fundamental para o próximo ano, ainda que, como coloca o maestro, “uma vez que temos um produto já realizado nas mãos fica mais fácil conversar com a iniciativa privada”. Além de verba para realizar novas produções, a companhia precisa de uma sede – que pode tanto ser um teatro já existente quanto um novo teatro. O ministro Juca Ferreira me disse ontem aqui em Belo Horizonte que o ministério vive momento de ascensão orçamentária e que investiu na companhia tendo em mente um trabalho a longo prazo, permanente. O objetivo, disse, é que um dia ela possa se autosustentar, mas isso leva tempo. Até lá, o Estado pretende ajudar. Estamos, no entanto, em ano de eleição e uma mudança no governo federal pode significar menos verbas. Antes do final do ano, diz o ministro, haverá empenho para garantir a sobrevivência da companhia para 2011, além de ajuda para que ela encontre uma sede. Como isso será feito, por enquanto, não foi anunciado. Enfim, a Companhia está apenas no começo e agora deve percorrer o Brasil, amealhando resultados que a ajudem a se manter viva.

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