Diário da Coreia (4): uma orquestra reinventada

João Luiz Sampaio

21 de outubro de 2009 | 13h03

Hoje de manhã, após o primeiro concerto, realizado ontem à noite, conversei rapidamente com Erich Lehninger. Um dos grandes violinistas em atividade no Brasil, solista, professor, camerista, ele assumiu no início do ano o posto de spalla da Sinfônica do Teatro Nacional – e ajudou o maestro Ira Levin a reinventar as cordas do grupo. “Há músicos muito talentosos nessa orquestra”, diz ele. “Meu trabalho é orientá-los na busca pela intenção das partituras e propor uma nova disciplina.” O concerto da noite anterior é prova de que os resultados estão sendo alcançados. Seja nos breves e contrastantes episódios de “Los Caprichos”, seja na melancolia dos movimentos iniciais da “Bachiana nº 4” ou mesmo nas explosões dramáticas de “Francesca da Rimini”, de Tchaikovski, as cordas da Sinfônica de Brasília já apresentam uma nova personalidade. E isso, de resto, vale ao conjunto da orquestra. Símbolo acabado dessa nova fase, em que a orquestra pode reivindicar posição de destaque da música de concerto brasileira, é a interpretação da “Sinfonia nº 5” de Mendelssohn, em que o maestro Levin e seus músicos oferecem uma leitura mais introspectiva e tensa, recusando a superficialidade que o senso comum costuma empregar à produção de Mendelssohn. Como bis, o “Batuque”, de Lorenzo Fernandez, repetido duas vezes, encerrando a noite em clima de festa brasileira. Na noite de hoje, o segundo concerto confirmou a impressão, com três voltas ao palco: dois Batuques e o Prelúdio da Bachiana n.º 4. Hora, então, de voltar para casa. Uma nova sede – ou ao menos uma reforma no Teatro Nacional Claudio Santoro; orçamento maior, mais músicos. O sucesso na Coreia, é verdade, não apaga os problemas. Mas é indício de que vale a pena enfrentá-los.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: