Diário da Coreia (2): o mundo ficou pequeno demais

João Luiz Sampaio

19 de outubro de 2009 | 17h15

Em uma das paradas do longo caminho para Seul, eu conversava com o maestro Ira Levin sobre Franz Liszt e as viagens que ele fazia, pela Europa toda, como pianista. Tudo começou por conta da biografia de Lauro Machado Coelho, O Cigano Visionário, que acaba de ser lançada, e a associação entre as viagens dele e a longa jornada para a Coreia. Hoje, depois de um voo de 22 horas, chega-se do outro lado do mundo; naquela época, imagina os dias de viagem que Listz enfrentava para chegar de um canto a outro em suas turnês – e, além disso, como imaginar a fama dele viajando e chegando a países e culturas diferentes. A nossa viagem, brincou Ira, fica até curta e confortável quando se tem isso em mente.Curta demais, eu diria. A viagem, o traslado, em si, naqueles dias, já deveria ser uma jornada transformadora. Não apenas por conta dos locais pelos quais se passava, as paisagens, as diferentes culturas, antes de se chegar a um destino final. Mas pelo próprio tempo de reclusão, de reflexão, de libertação de mundos que ficam para trás, abrindo a mente para os mundos que ainda estão por vir. E não falo apenas dos mundos físicos, das cidades, dos países. Mas, principalmente, nossos mundos interiores, pelos quais a viagem às vezes é a mais complicada. Enfim, algumas ideias no meio da madrugada. Aqui nos dizem que o ideal é aguentar forte o primeiro dia, apesar do relógio biológico sugerir que se trata da noite. Eu me mantive acordado, saí para conhecer um pouco do centro da cidade. Há um riacho centenário que cruza a cidade, onde, séculos atrás, as mulheres lavavam roupas e pegavam água para cozinhar. Hoje, ele cruza, com suas águas limpas e pouco volumosas, o centro financeiro da cidade. Sim, a modernidade. No entanto, não sei o que é “pior”, quer dizer, qual o sinal mais contundente da modernidade: o riacho em meio ao caos urbano ou a sensação, ali do lado das águas, de se estar em um recanto do interior, e de achar que aquilo tudo faz sentido… Bom, eu deveria estar dormindo. A noite está fria, em torno de cinco graus, muito vento. Voltei para o quarto. Na televisão, Oprah, depois dr. Phil, CNN, filmes, Charles Bronson, José Serra entregando troféu na corrida, resultados do campeonato brasileiro de futebol.

O mundo ficou pequeno demais, não?

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