Dez anos de Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. E agora?

Dez anos de Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. E agora?

Orquestra comemorou aniversário com dois concertos na Sala Minas Gerais, revelando a solidez de projeto construído cuidadosamente passo a passo, e hoje à espera de condições para alçar novos voos

João Luiz Sampaio

26 Fevereiro 2018 | 16h49

BELO HORIZONTE (MG) – “Para nós, existe uma questão fundamental, que é a excelência, e não apenas artística”, diz o maestro Fabio Mechetti durante uma conversa na manhã do dia 17 em seu escritório na Sala Minas Gerais, antes do ensaio geral para a apresentação daquela noite. “Quando começamos o projeto, não víamos sentido em simplesmente criar mais uma orquestra. A ideia era um plano de trabalho a longo prazo, com qualidade, com cada passo sendo dado com cuidado”.

A apresentação marcada para aquele fim de semana era especial. Com concertos nos dias 17 e 18, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais celebraria seus dez anos, interpretando a obra com que nasceu, a Sinfonia nº 9 de Beethoven, ao lado da Suíte Vila Rica, de Camargo Guarnieri, programada como uma homenagem à cultura mineira.

 

A Sala Minas Gerais é, de certa forma, símbolo do crescimento do grupo, hoje um dos principais do país. O projeto, mesmo três anos depois da inauguração, ainda impressiona pelo despojamento – e, dentro da sala de concertos, pelo modo como mantém o público próximo da orquestra. E o clima intimista convida a uma percepção diferente do ato de fazer música.

Simbologias à parte, a sala permitiu ao grupo passos também importantes a respeito de sua sonoridade. A casa própria (ainda que o governo de Minas Gerais, contrariando o projeto original, tenha feito da orquestra inquilina do prédio e não sua gestora) permitiu não apenas um aumento no número de concertos, mas também a criação de séries nas quais os músicos têm se dedicado a Haydn, Mozart, Beethoven e, este ano, às escolas nacionais, um projeto de tons quase didáticos – tanto para o público quanto para os instrumentistas.

A mensagem mais interessante, nesse sentido, parece ser a de que este trabalho de refinamento da sonoridade continua, pois se trata, afinal, de um processo constante. Nas últimas temporadas, por exemplo, a filarmônica tem gravado sinfonias de Mahler, com o objetivo declarado de concluir uma integral do compositor (em 2018, eles lançam a quinta e a sexta e gravam a terceira e a quarta). “A ideia de gravar Mahler não é concorrer com as versões que já existem no mercado, ainda que tenhamos muito orgulho do resultado”, explica Mechetti. “Gravar Mahler é uma forma de conhecermos ainda melhor o nosso som, a nossa sala, é um passo na construção de nossa identidade”. Em outras palavras, um documento a respeito de onde a orquestra está hoje – e para onde está se encaminhando.

O Mahler não é o único projeto discográfico da orquestra. Depois de gravar Villa-Lobos para o selo Naxos e concertos para piano de Guarnieri e Mignone, com a pianista Cristina Ortiz, para o selo Sesc, outros cinco discos dedicados à música brasileira estão nos planos, em uma parceria com o Itamaraty, cada um deles em torno de um autor: Alberto Nepomuceno, Almeida Prado, Henrique Oswald, Lorenzo Fernandez e Carlos Gomes. Entre os planos futuros, some-se à lista de gravações o projeto de uma filarmônica jovem, além de uma turnê europeia em outubro, com o pianista Nelson Freire. Neste caso, no entanto, há uma ressalva importante, que Mechetti insiste em fazer. “O dia a dia da orquestra precisa estar equacionado antes que projetos como esses possam sair do papel”, explica ele, com cautela.

Sobrevivência

Para Mechetti, “uma orquestra representa a síntese do que deve ser uma sociedade, ou seja, a harmonia de todos em prol de um objetivo comum”. “É isso que dá respaldo ao trabalho e que marca a diferença entre o que é gasto e o que é investimento. Cerca de 1 milhão de pessoas já assistiram aos nossos concertos. Começamos com 700 assinantes e hoje já temos 3.504, entre eles muitos jovens estudantes. A filarmônica ajudou a colocar a música clássica no mapa da cidade, do estado, também com as turnês pelo interior”.

Há outros números, não apenas no que diz respeito à atividade em si do grupo, mas que mostram a tentativa de, por meio de projetos específicos para redes sociais, falar de uma nova maneira, com um novo público. É o caso, por exemplo, dos quase duzentos webfilmes produzidos pela orquestra, assim como livros e um DVD sobre o universo de uma orquestra sinfônica, tema também de quatro exposições multimídias itinerantes. Mais do que isso: em um olhar estrutural, dá para pensar o trabalho da filarmônica para além de Belo Horizonte, com a orquestra como passo importante na construção de um renascimento sinfônico no Brasil, ponto de referência de uma descentralização que ajudou a jogar por terra a ideia de que o eixo Rio-São Paulo era o único difusor de atividades no mundo clássico.

Ainda assim, houve redução nas verbas repassadas pelo estado nos últimos anos. A crise econômica não é simples desculpa, mas o que se fez com ela, na área cultural, é reveladora da incompreensão da importância da arte dentro da sociedade. A maneira como os cortes vêm acontecendo sugere uma vez mais a percepção de que arte é entretenimento e não uma construção de longo prazo capaz de espelhar e transformar a realidade à nossa volta.

A filarmônica, assim, chega aos seus dez anos em uma situação curiosa. Se a programação mantém a qualidade, com grandes solistas e maestros convidados, o freio de mão puxado impede (ou coloca em modo de espera) outros voos, que permitiriam a ela abrir novos campos de atuação, em especial em uma época na qual parece cada vez mais claro que projetos extrapalco, ou seja, que entendem uma orquestra como ponto de irradiação de diferentes ações de formação e de difusão em torno do valor da cultura musical, são fundamentais. Poder celebrar dez anos, neste contexto, é realmente importante. Mas ter as condições de seguir construindo essa trajetória, com novos passos, seria ainda mais.