Desta vez, sem o chuveiro

Desta vez, sem o chuveiro

João Luiz Sampaio

30 de agosto de 2012 | 10h44

Foto de Clayton de Souza/AE

Da última vez em que foi visto no Brasil, o tenor italiano Fabio Armiliato estava sobre o palco, mas dentro do chuveiro, cantando uma ária da ópera I Pagliacci em uma das mais absurdas e hilariantes cenas de Para Roma com Amor, de Woody Allen. Na ficção, Armiliato vive um agente funerário com uma voz incrível, mas incapaz de cantar fora do banheiro. Na vida real, a participação no filme tirou do anonimato do grande público um nome já bastante conhecido no universo da ópera. Aos 45 anos, o tenor é um dos principais cantores italianos da geração pós-Luciano Pavarotti – e o mesmo se pode dizer, entre as sopranos, de Daniela Dessì, sua mulher, com quem ele faz amanhã e domingo concertos no Teatro Municipal.

Puccini e Verdi são os destaques do programa que os dois cantam por aqui – e suas óperas têm ocupado a principal parte da carreira dos dois nos últimos anos. Ele conta que vem de uma família “não musical”, mas “apaixonada por música”. “Meu pai era um entusiasta de arte em geral e, principalmente, da música”, conta ele ao Estado depois de um ensaio, na manhã desta quarta-feira, 29, na Sala Olido. “A todo instante ouvíamos gravações, em especial de cantores como Beniamino Gigli, que aliás esteve muitas vezes em São Paulo”, diz. Em Gigli, impressionava a beleza do canto – e, ao mesmo tempo, a naturalidade com que sua voz chegava ao ouvinte. E o contato, desde cedo, com os grandes nomes da ópera acabou por levá-lo a tentar uma carreira no meio – seu irmão, aliás, Marco Armiliato, é maestro, presença constante em teatros como o Metropolitan Opera House de Nova York. O começo da carreira se deu, lembra o tenor, em papéis pesados, de autores como Verdi ou Puccini, além de Andrea Chenier, na ópera de Umberto Giordano, símbolo do período verista. “Não foi uma trajetória ortodoxa. Saí cantando esses personagens até que me dei conta de que seria preciso dar um passo para trás e voltar ao repertório do bel canto, antes de retomar à música que faço hoje.”

Já Daniela Dessì seguiu um caminho distinto. A tia, diz, tinha uma voz incrível de meio-soprano, “mas era tímida demais para seguir uma carreira”. “Por conta disso, cantou sempre em corais. Mas insistia em uma educação musical na família e eu, aos 4 anos, comecei a estudar piano.” Pouco antes de completar 15 anos, Daniela foi levada pela tia a participar como figurante em uma apresentação ao ar livre, nas Termas de Caracalla. A ópera era Aida. “Claro, eu me apaixonei na hora e, logo depois, fui estudar canto.” A estreia viria dois anos depois. “Mas, ao contrário do que aconteceu com o Fabio, segui um caminho mais tradicional, quer dizer, comecei com os autores barrocos, depois cantei compositores do século 18, Mozart, Rossini. E só mais tarde encarei o desafio de óperas de Verdi e Puccini, quando já estava mais madura tanto vocalmente como no que diz respeito à minha experiência de vida.”

Eles costumam se apresentar em conjunto, seja no palco de concertos, seja em montagens de ópera. Há dois anos, gravaram na Itália uma Traviata, regidos por John Neschling. Armiliato, na verdade, esteve no Brasil nos anos 90, cantando Don Carlo, no Teatro Municipal do Rio. Daniela faz, amanhã e depois, sua estreia por aqui. E diz que espera voltar. Armiliato, por sua vez, acaba de estrear no papel de Otelo, ópera de Verdi baseada no texto de Shakespeare. É um desafio enorme para o tenor. “Ainda mais quando você leva em consideração todos os grandes intérpretes do passado, como Plácido Domingo, Mario del Monaco, Ramon Vinay. Mas você então respira fundo e se dedica a compreender e a estudar a partitura”, explica.

Daniela Dessì, em entrevista recente, falava de Renata Tebaldi, Maria Callas, Renata Scotto, Mirella Freni e Montserrat Caballé como influências importantes em sua trajetória. É preciso estudar o que fizeram de certo – e errado. “Não dá para esquecer do passado, é preciso estar em contato com ele. É como um pintor que se recusa a ver um quadro de Giotto. Ouvir os cantores do passado é ler um livro de história. A nós, cabe hoje entender a proposta artística deles e, claro, nesse processo, descobrir a nossa própria personalidade, aquilo que nos interessa como artista. Mas é bobagem achar que, na hora de formar a sua personalidade, é preciso esquecer o passado. Não, nunca esqueça.”

Os dois têm uma visão bastante objetiva do mundo da ópera. Ele reconhece que, em pouco mais de 50 anos, o gênero deixou de ser um espetáculo popular, “o mais popular”, perdendo espaço para a televisão, o cinema. Recuperar um espaço na sociedade, diz, só se faz com educação musical. Ela concorda. “Não adianta levar a música às crianças de vez em quando. É preciso fazer dela parte da rotina de formação nas escolas. Mas isso de nada vai adiantar se o que é mais importante não ficar claro: a ópera é paixão. Ouço muitos depoimentos de pessoas que me dizem: puxa, nunca havia entrado num teatro de ópera e adorei o espetáculo, mesmo sem entender tudo o que estava acontecendo.” A soprano, no entanto, ao tocar no assunto, não perde a chance de cutucar alguns colegas. “A ópera jamais pode ser tratada como show biz e isso é algo que as pessoas nem sempre entendem. No fundo, o que é mais interessante: uma diva que dura alguns anos e desaparece ou uma diva que fica 30 anos em atividade e desenvolve ao longo do tempo uma trajetória de respeito?”

Sobre a participação no filme de Woody Allen, Armiliato lembra do primeiro contato com o cineasta, que pediu a ele que comparecesse a uma audição. “Ele já me conhecia do palco e sabia que eu também falava inglês, o que era importante. Fiquei surpreso com o respeito que não só ele mas toda a equipe de produção tem pelos profissionais da ópera. Tudo era conversado, nada foi imposto.” O interessante, para ele, foi experimentar uma nova linguagem. “Claro, você no palco às vezes é filmado, mas é diferente cantar para a câmera. No teatro, a reação do público é imediata, você sente como a apresentação está correndo, se está agradando ou não. Num set de filmagens, você fica no escuro e precisa confiar no que o diretor está dizendo. E foi uma honra para mim trabalhar com um gênio como Woody Allen”, diz, e é logo interrompido pela mulher. “E uma enorme honra para ele trabalhar com você”, diz, divertindo-se. Ela não participou das filmagens, mas brinca que ele em casa é um pouco como seu personagem – não para de cantar. “E eu fico reprisando a cena do chuveiro o tempo todo quando estamos em casa, acho muito divertido.”