Desmanches

João Luiz Sampaio

27 de setembro de 2010 | 13h17

Cheguei hoje de férias e, por mais que a gente se afaste, volta e encontra tudo igual. Notícias do Municipal do Rio e do Teatro São Pedro, de novo, nos levam ao encontro dos velhos problemas da ópera no Brasil. Do Rio, recebemos informações sobre o adiamento de duas produções, “O Castelo de Barba Azul” e “Tosca”, que completariam a temporada de reabertura do Municipal carioca. No São Pedro, as notícias de bastidores, fornecidas por fontes próximas ao governo do Estado, dão conta do cancelamento de “Colombo” e “A Viúva Alegre”, que encerrariam a primeira temporada da recém-criada orquestra do teatro.

No Rio, o adiamento da ópera de Bartók se deu por incompatibilidade de agendas de um cantor solista; já “Tosca” caiu porque, em dezembro, o Municipal será ocupado pelos painéis “Guerra e Paz”, de Cândido Portinari, parte do acervo da ONU, que voltarão ao país para restauro. O termo “adiamento” sugere que os títulos serão produzidos em 2011 – mas não está claro se serão somados aos títulos previstos para a próxima temporada ou se vão substituir eventuais novas montagens. Em outras palavras: na contagem final, o Municipal pode produzir duas óperas a menos entre 2010 e 2011, o que, no estado atual do mercado, faz bastante diferença para artistas e para o público. Já em São Paulo, a razão para o cancelamento seria a falta de verbas.

Cancelamentos acontecem no mundo todo, por diversas razões, são parte do dia a dia de qualquer teatro. No entanto, há algumas questões a levantar. Dizer que a agenda de um cantor pode cancelar uma produção soa estranho, afinal, não há outros disponíveis? Quanto à importância dos painéis de Portinari, não há o que dizer, e é natural que sua presença movimente dinheiro e tempo na agenda do teatro, tornando impossível a realização da Tosca. No entanto, um teatro de ópera não ter datas ou verbas para realizar óperas é algo que não se deve tratar de maneira natural. Ok, o mundo é cinza e o mercado da ópera no Brasil tem nuances que tornam julgamentos como esse quase ingênuos. Ainda assim, parece claro que a ópera vem em segundo lugar, sempre. E isso, num teatro de ópera, não faz sentido – ao menos, não deveria fazer.

Em São Paulo, a possível decisão da Secretaria Estadual da Cultura é ainda mais grave, porque aponta para um desencontro no que diz respeito à criação de uma política cultural. Há anos o Teatro São Pedro procura um caminho de produção, que culminou no começo do ano com a criação de uma orquestra própria, responsável pela temporada do espaço. Depois de dois espetáculos, “Rigoletto” e “Don Pasquale”, o crescimento é evidente. Cancelar o restante da temporada é interromper esse processo e jogar o São Pedro de volta a um limbo do qual foi difícil começar a sair. Mais: sem óperas, o que vai fazer a orquestra do teatro? Ao que tudo indica, nada. Ou seja, nem seis meses após sua estreia, a Sinfônica do Teatro São Pedro seria desmanchada, senão na prática, simbolicamente? Qual a ideia por trás desses desmandos do governo? Qual a política cultural que guia a decisão? Qual seria o novo plano para o teatro?

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