Depois do “Macbeth”

Depois do “Macbeth”

João Luiz Sampaio

28 de novembro de 2012 | 03h57

Considerações sobre o “Macbeth” de Bob Wilson e a história recente do Teatro Municipal

Assisti hoje à noite ao “Macbeth”, de Giuseppe Verdi, no Teatro Municipal de São Paulo e saí em estado de graça com a montagem do diretor norte-americano Bob Wilson. O virtuosismo cênico é impressionante – o trabalho formal, a atenção a detalhes, o cuidado milimétrico na direção de atores, a construção da narrativa feita a partir da luz. Sua concepção visual e cênica se afasta do que se espera de um Verdi “tradicional” – e é justamente ao fazer isso que devolve à plateia todo o poder teatral do compositor, nos revela uma vez mais, na construção das cenas, sua busca por reinventar o drama musical italiano. A música e o teatro que ela carrega são as personagens principais da montagem. E então é preciso reverenciar a qualidade dos cantores, em especial do Macbeth de Angelo Veccia e da Lady Macbeth de Anna Pirozzi – e, claro, da regência impecável do maestro Abel Rocha. João Marcos Coelho já escreveu sua crítica para o “Caderno 2” e outros comentaristas, como o diretor Cleber Papa, publicaram análises interessantes; da mesma forma, estou certo de que os colegas Irineu Franco Perpetuo e Leonardo Martinelli logo publicarão no site da revista Concerto suas sempre esclarecedoras análises. E, enquanto isso, eu me recolho à minha insignificância e falo um pouco sobre uma das questões que me vieram à mente ao longo do espetáculo, pensando neste “Macbeth” no contexto da história recente do Teatro Municipal.

Ao longo da última década, é possível identificar alguns blocos específicos no que diz respeito à programação do Teatro Municipal, que coincidem, é natural, com a troca de guarda na sua direção artística. A gestão do maestro norte-americano Ira Levin optou por sacudir o repertório da companhia, trazendo para São Paulo alguns títulos importantes, como “Jenufa”, de Janácek, “Salomé”, de Strauss ou o “Don Carlo”, de Verdi, mesma preocupação levada à temporada sinfônica. Jamil Maluf, em sua atuação como diretor, ampliou o número de produções encenadas anualmente, apostou na contratação de cantores brasileiros, esboçou uma temporada de repertório – e, para tanto, encarou o desafio de mexer em um vespeiro pouco charmoso e midiático mas fundamental: a infraestrutura do teatro, instaurando em definitivo uma verdadeira central técnica de produção e dando início à reforma do prédio e do palco. A Abel Rocha, por sua vez, coube devolver ao teatro uma rotina de produção depois de quase dois anos em que os corpos estáveis tiveram, por conta das obras, suas atividades drasticamente reduzidas – e o fez apostando em uma combinação de títulos célebres com outros menos conhecidos, utilizando os novos recursos técnicos conquistados e investindo em diretores, originários do mundo da ópera ou não, de olhares ousados – processo do qual o novo “Macbeth” de Bob Wilson é, obviamente, um importante e significativo ponto de chegada.

Nas frestas entre estas três gestões há um elemento em comum – dilemas administrativos e estruturais que, motivados por mudanças de guarda na prefeitura ou mesmo por rearranjos internos, levaram à interrupção de um projeto e à instituição de um novo. Nada contra a diversidade; o problema é que esses intervalos significaram, na maior parte da vezes, cancelamentos, indefinições, pausas na atividade dos corpos estáveis e, consequentemente, a períodos de estagnação artística. Quando um projeto entrava no eixo e parecia pronto a se estabelecer, era interrompido e substituído, resultando em um círculo cruel. O que se viu no Municipal nos últimos anos não foi a concretização de um projeto de longo prazo mas, sim, a sucessão de propostas interessantes que acabaram abortadas antes mesmo de se consolidarem e oferecerem frutos perenes para o teatro e a cidade.

O mesmo desafio se coloca nesse momento, quando uma gestão se encerra e uma nova equipe se prepara para assumir a prefeitura. O Municipal vive uma nova indefinição que, desta vez, não se limita à manutenção de um maestro ou de um projeto artístico. A atual gestão da Secretaria Municipal de Cultura conseguiu aprovar o projeto de criação da Fundação Teatro Municipal. Mas, por sua configuração legal, ela depende de uma organização social que se responsabilize por sua gestão e permita a instituição de uma nova realidade contratual e de trabalho para os artistas dos corpos estáveis e os convidados a participar da programação, além de centralizar o trabalho de produção, hoje feito por empresas convidadas. Seria prematuro pensarmos que já vivemos no melhor dos mundos: há arestas a serem aparadas, acertos a serem considerados. Mas o “Macbeth”, visto em conjunto com as demais montagens apresentadas ao longo dos últimos 18 meses, é testemunha de um momento importante na história do teatro – em especial se o compararmos com a situação vivida por seu irmão carioca, atolado em cancelamentos e em uma programação que beira a irrelevância (o tema tem sido assunto de reportagens e manifestações das mais variadas em blogs e nas redes sociais). Mas, se não forem resolvidos impasses administrativos, mais uma vez o que sobrará deste fim de gestão é um período de indefinição – a certeza de um potencial mais uma vez deixado de lado.

O Municipal, e seu público, merecem destino melhor.

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