De volta para o presente

De volta para o presente

João Luiz Sampaio

12 de junho de 2009 | 17h15

John Eliot Gardiner

Há alguns anos, o maestro John Eliot Gardiner rompeu relações com o todo poderoso selo Deutsche Gramophon. A gravadora havia prometido a ele bancar um projeto longamente acalentado – registrar todas as cantas de Bach nas igrejas em que elas haviam sido estreadas. Lá pela metade da série, a Universal, que comprou a DG, deu para trás. Pois Gardiner não se fez de rogado – criou um selo próprio, o Soli Deo Gloria, e terminou a série, disponibilizada tanto nas lojas como, a preços super acessíveis, na internet. Pouco depois, o maestro resolveu experimentar. Em 2005, fez em Londres uma série de concertos dedicados a Mozart, nos quais, após a apresentação, o público podia adquirir a gravação do que acabara de ouvir. E o Soli Deo Gloria acabou se tornando veículo de novos projetos.

O primeiro deles é uma integral das sinfonias de Brahms, mais o Requiem Alemão. O conceito é original – ao lado das sinfonias, que serão lançadas em cinco CDs, ele colocou obras corais menos conhecidas do próprio compositor e de outros autores com quem aprendeu ou conviveu, como Mendelssohn ou Schubert. A ideia nos leva ao encontro não apenas da música de Brahms mas do contexto em que viveu, o que por si só já ofereceria um novo olhar sobre as peças, compreendendo melhor, segundo o maestro, a formação do estilo brahmsiano. Mas Gardiner foi além – nos dois primeiros discos da série, com as duas primeiras sinfonias, dá amostras de um Brahms que tem tudo para ser referência. Ele comanda a Orchestre Révolutionnaire et Romantique, que utiliza técnicas e instrumentos de época, sem vibratos exagerados e uma preocupação estilística muito coerente. O destaque, no entanto, é a interpretação de Gardiner – a maneira como ele constrói os fraseados, suas escolhas de tempo, tudo dá à primeira sinfonia, por exemplo, uma urgência muito grande. O mesmo vale para momentos como o movimento final da segunda sinfonia, em que ele substitui o tom grandioso da coda final por uma busca tensa por resolução musical. É um clichê danado, eu sei, mas Gardiner me fez ouvir Brahms com outros ouvidos – de alguma forma, ele volta ao passado para nos oferecer um Brahms novo, moderno, que soa parecido com nossa época, repleto de vigor, drama, paixão.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: