Curitiba ganha nova companhia de ópera

Curitiba ganha nova companhia de ópera

Opera Orchestra Curytiba abre espaço a jovens músicos e solistas e já apresentou óperas de Rossini e Puccini na Ópera de Arame, cartão-postal da cidade

João Luiz Sampaio

07 Setembro 2015 | 19h14

Nas últimas décadas, Curitiba tornou-se o centro de uma escola de canto importante na cena operística brasileira, em parte encabeçada pela soprano Neyde Thomas e pelo barítono Rio Novello. Os dois foram responsáveis por formar gerações de cantores do sul do país e de outras regiões, que lá buscaram orientação em momentos de suas carreiras. Nos últimos anos, no entanto, os talentos têm sido produzidos para exportação: foram, afinal, muito poucos os espetáculos de ópera estreados na cidade, realizações pontuais incapazes de criar uma sistemática de produção.

Ana Paula Brunkow em cena de

Ana Paula Brunkow em cena de “Suor Angelica”, de Puccini

Foi com isso em mente que, no início deste ano, começou a tomar forma uma nova companhia de ópera na cidade, a Opera Orchestra Curytiba. O conceito foi idealizado pelo produtor Rogério Mendes Júnior. “Sempre gostei de ópera, e nos últimos anos me questionava sobre a ausência do gênero em Curitiba. Comecei a me perguntar: o que seria necessário para fazer ópera?”. Ele colocou a pergunta ao maestro italiano Alessandro Sangiorgi. “Ele me disse: precisamos de uma orquestra, de um palco, de cantores”, conta ele, que foi atrás de patrocínio e parcerias.

“Ficou claro para mim que havia alguém disposto a mexer no cenário atual, fazer as coisas acontecerem. E por isso abracei o projeto”, diz Sangiorgi, que já dirigiu o Teatro Guaíra. A orquestra foi formada a partir de audições realizadas na cidade. “O grupo que se formou tem muitos jovens músicos, que tocam ao lado de outros mais experientes. Isso foi proposital: fazer as audições era uma maneira de buscar novos artistas, de forma que a atuação da companhia significasse também um aumento de mercado de trabalho para os instrumentistas e não apenas para os cantores líricos”, diz Mendes Júnior.

O primeiro título escolhido foi L’Occasione fa il Ladro, de Rossini, apresentada no início de junho. “O resultado foi além das nossas expectativas, com lotações esgotadas por um público diversificado, formado não apenas por quem gosta de ópera mas também por muita gente que pela primeira vez ouvia uma obra do gênero. E aí me pareceu importante produzir logo um novo título, para que as pessoas se dessem conta de que esse não era um projeto isolado, de que a companhia nascia com o objetivo de ser uma presença constante na cena musical da cidade.” Foi então que Sangiorgi sugeriu a ideia de montar Suor Angelica, de Puccini.

A escolha dos títulos foi arriscada – Rossini e Puccini são autores consagrados, mas L’Occasione fa il ladro e Suor Angelica não estão entre suas obras mais célebres. “Há alguns fatores que levamos em conta”, explica Sangiorgi. “Começar com dois títulos relativamente desconhecidos e atingir o sucesso de público que conseguimos mostra que, não importa o que diz o senso comum, as pessoas se interessam, tem curiosidade sim por ópera. Mas há também uma outra preocupação: montar óperas para as quais temos cantores disponíveis, dando espaço para uma geração que precisa mostrar seu trabalho”, diz. Em Suor Angelica, apresentada em agosto, a experiente soprano Ana Paula Brunkow interpretou o papel-título, acompanhada de um elenco composto ainda por Katia Rezende, Daniele Oliveira Zelatrice, Helen Tormina, Camila Lopes, Letíssia Etcheverry, Mayara Annanda Nunes, Ísis Carvalho, Carol Osternack, Viviane Kubo, Karolyne Liesenberg, Mariana Thomaz, Luisa Favero, Vivian Schwaner, Thamiris Rodrigues, Sabrina Mendes e Mariana Irigonhê.

A apresentação foi realizada na Ópera de Arame (no futuro, Mendes Júnior e Sangiorgi não descartam encenar obras em outro cartão postal da capital paranaense, a Pedreira Paulo Leminski). Por conta das especificidades do espaço, foi necessária a amplificação da orquestra e dos cantores. Há ajustes a serem feitos, mas o resultado final revelou uma leitura bastante fluente do arco dramático do partitura pelas mãos de Sangiorgi, com atenção especial a cenas marcantes, como o dolorido monólogo em que Angelica, após receber a notícia da morte do filho, vê na tragédia a possibilidade de reencontrar o filho, agora transformando em um anjo do céu – na mistura de sentimentos conflitantes, a cena é Puccini no auge de sua capacidade narrativa. A direção de Roberto Inoccente deu molde tradicional ao desenvolvimento da ação.

O futuro da Ópera Orchestra Curytiba já está sendo gestado. Há conversas sobre levar a Curitiba Don Pasquale, de Donizetti, produção assinada por André Heller-Lopes: a montagem estreou em Buenos Aires e, este mês, ganha nova temporada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Para Mendes Júnior, estabelecer parcerias como essa é uma medida importante. Sangiorgi, por sua vez, chama atenção à possibilidade da realização de concertos: seria uma maneira de manter a orquestra trabalhando em conjunto no intervalo entre as produções completas. Seja como for, a companhia já provou argumentos importantes, talvez esquecidos depois de tanto tempo sem atividade: há profissionais capacitados e um público interessado em ópera em Curitiba. Não custa nada lembrar.

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