Correria danada

João Luiz Sampaio

19 de junho de 2009 | 21h35

A semana passou voando, com a preparação de um material especial sobre o Festival de Campos do Jordão e uma matéria especial para o ‘Cultura’, e eu mal consegui passar por aqui e deixar um ou outro post. Na terça, estive também na Sala São Paulo, acompanhando o ensaio da “Sinfonia nº 5” de Tchaikovski, com a Osesp e Fábio Mechetti. Entrevistei ele para a edição de quinta-feira do “Caderno 2”, e ele falou abertamente sobre a orquestra e o novo diretor artístico e suas responsabilidades. Você acessa a entrevista aqui, mas na verdade queria mesmo é falar do Tchaikovski, que, neste momento, eu devia estar assistindo, se tivesse conseguido sair da redação. Enfim, há tempos que estou para rascunhar alguma coisa sobre essa sinfonia, desde que peguei a gravação de Gustavo Dudamel e a Sinfônica Jovem Simon Bolivar – muito boa, por sinal, capaz de revelar sutilezas em uma partitura já tão executada. Tem gente que acha Tchaikovski exagerado, esbarrando no kitsch, over demais na derramação (essa palavra existe? algo me diz que não…) de emoções. Mas isso não me incomoda em nada. Pelo contrário, fico sempre intrigado, na Quinta, na maneira como o mesmo cara que escreveu aquele doído segundo movimento chega, no final da peça, naquela evocação quase marcial da Providência. Acho que é isso que me fascinou na gravação de Dudamel, a capacidade de mostrar, em pequenos detalhes, na articulação e na sonoridade que procura nas cordas, que há mais proximidade entre a felicidade e o desencanto do que o óbvio nos permite ver. Na terça, comprei também na Sala o disco que me faltava da Osesp, com a “Sinfonia nº 1” de Brahms, selo Biscoito Fino. Ainda acho que a orquestra tem a ganhar com um novo diretor artístico (mas que ele venha logo!!!), mas isso não impede de afirmar, com todas as letras, a imensidão do legado deixado por John Neschling. A leitura do Brahms é tradicional, não tem grandes invenções, é verdade, mas talvez por isso permita que a orquestra se mostre bastante à vontade, demonstrando toda a qualidade alcançada em pouco mais de dez anos de trabalho. Bom, no espírito da correria, amanhã vou dar um pulo em Campinas para ver, na CPFL, trechos da ópera “Yerma”, de Villa-Lobos. Estava folheando a partitura outro dia, junto com a gravação, de qualidade sonora muito ruim, que baixei na internet (do concerto ao vivo com a peça, no Rio, em 1981, regência de Mario Tavares), e estou impressionado com a qualidade da música. A história é baseada em uma peça de Garcia Lorca, símbolo da capacidade do autor de colocar em oposição o que chamava de “forças da vida” e a opressão que, mundo afora, nos leva a nos distanciar de nosso destino de liberdade. Yerma é uma Turandot no que diz respeito às exigências vocais – e o peso se estende aos papéis do tenor e do barítono. Um crítico que assistiu à estreia da peça nos EUA escreveu que a partitura tem um pouco de “Stravinsky, Debussy, Puccini, um pouquinho de Richard Strauss – e muito Villa-Lobos”. Não tem como ser mais preciso que isso. E por falar em ópera, revezando com o Brahms no iPod está o “Macbeth”, de Verdi, que, no domingo, vou ver em Belo Horizonte, produção do Palácio das Artes com direção cênica de Cléber Papa e regência de… Mechetti, ele de novo! Estou curioso para ver o que o Cléber preparou por lá e também para conhecer as vozes – Jason Stearns e Cynthia Lawrence fazem o casal Macbeth. Ele tem atuado muito como cover nos EUA; ela já cantou Butterfly, Tosca e a Lady no Metropolitan. Vamos ver. Mando notícias de lá.

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