Conversas com Gilberto Mendes

Conversas com Gilberto Mendes

João Luiz Sampaio

11 de fevereiro de 2009 | 13h10

O compositor santista Gilberto Mendes é, com perdão do clichê, um homem do mundo – mas o “santista” ele não dispensa jamais, assim como o caminhar no final da tarde pela praia, observando o pôr-do-sol. É símbolo da música de vanguarda brasileira e, até hoje, mantém vivo o espírito da música nova com a realização de um festival anual. O desafio a que se propôs, desde sempre, foi o de pensar a música perante os estímulos e as questões de nosso tempo. Por tudo isso, aos 87 anos, continua sendo um oásis de inteligência no cenário musical brasileiro; e suas obras seguem nos fazendo questionar toda e qualquer certeza sobre a composição musical e o próprio conceito de música. O mais fascinante em Gilberto, no entanto, além da simplicidade própria de quem mantém a capacidade de se encantar com o mundo, é como universos excludentes nas cartilhas das principais correntes estéticas do século 20 convivem de maneira harmoniosa em seu jeito particular de enxergar e compreender o mundo. Nos últimos anos, aqui no jornal, alguns dos momentos mais especiais para mim foram as conversas com Gilberto – e é esse mesmo clima de bate-papo que encontrei agora lendo “Viver Sua Música: Com Stravinsky em meus Ouvidos, rumo à Avenida Nevskiy” (Edusp/Realejo). Trata-se de uma coletânea de lembranças afetivas e profissionais. Selecionei dois trechos que representam bem a delícia narrativa de seu texto, assim como a precisão com que se coloca perante os debates estéticos dos últimos anos.

Gilberto Mendes em cena do documentário

“Na verdade, meu estilo é uma técnica in progress. A cada nova peça, quando necessário, eu desenvolvo uma outra técnica, específica para os problemas e idéias que essa nova peça me apresenta, mas que também enriquecerá a técnica geral básica. E assim vai se processando o meu estilo. Técnica é estilo, é ‘o homem por inteiro’, como dizia Stravinsky. A armação, os meios pessoais pelos quais inventamos nossa música. (…)O organismo musical quer perdurar. Um homem diferente do anterior vai querer outra música. E ele pode romper drasticamente, definitivamente, um processo em curso e criar um novo projeto sem vestígio do anterior, que parecia ser eterno. Um homem novo decidirá o que fazer diante desse último legado musical, talvez até vá ignorá-lo. No fim das contas, as coisas são o que a gente quer que elas sejam.”

“Nas atuais festas de entrega do Oscar, em Hollywood, as violinadas orquestrais que ouvimos já são comparáveis às piores das banais violinadas que acompanham geralmente os chamados cantores românticos brasileiros. A vitória do mau gosto, a decadência! E dizer que houve um tempo em que o requinte, o champagne de um ‘Thanks for the Memory’ ganhava um Oscar! Ouçam a gostosura que é a voz especialíssima da Martha Tilton nesse tempo, super jovem, cantando essa inesquecível canção, acompanhada pela orquestra de Benny Goodman, num arranjo direto e simples, perfeito, verdadeira música de câmara. É o que eu chamo de som da felicidade, como o que ouvimos também no final de ‘As Bodas de Fígaro’, de Mozart. O prazer da felicidade, que a música pode nos dar. (…) Ah, Martha Tilton de ma jeunesse! E eu me apaixonei por ela, seduzido pelo timbre de sua voz amorosa e terna, de uma simpatia irresistível. Nunca vi uma fotografia dela. Então, inventei seu rosto, um pouco de menina, mas eu era menino também… Coisa mais estranha, fantasmagórica, não faz muito tempo Martha Tilton se apresentou em São Paulo. Devia estar com bem mais de 70 anos, quanto tempo havia passado! Não quis vê-la. Preferi guardar na memória aquele rosto quase de menina que eu construí”.

Gilberto regendo uma de suas criações, “Último Tango em Vila Parisi”:

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