Com Nelson Freire em Boa Esperança

Com Nelson Freire em Boa Esperança

Em 2015, o pianista brasileiro voltou a sua Boa Esperança natal, no interior de Minas Gerais; preparando uma matéria especial para o Estadão, acompanhei o artista na volta à infância - e ao piano em que aprendeu o "Concerto" de Grieg

João Luiz Sampaio

01 de novembro de 2021 | 14h53

A viagem começou em Belo Horizonte. No palco da Sala Minas Gerais, Nelson Freire ensaiava com um amigo que lhe acompanhava há muito tempo, Beethoven, o Concerto para piano nº 4. Saiu do palco, fugiu discretamente das equipes de televisão que o aguardavam nos bastidores. Fechou-se em uma sala de ensaios.

Foi lá que o encontrei minutos depois. Ele estava sentado ao piano, olhando a paisagem pelas janelas amplas que davam para o Barro Preto. Aproximar-se de Nelson Freire dava sempre um frio na barriga. Porque ele não gostava de dar entrevistas, sim. Mas porque, por trás do jeito tímido e de moleque, estava um dos maiores músicos do planeta.

Naquele dia de  agosto de 2015, o pianista parecia particularmente tranquilo. Lembrou-se da conversa que tivéramos anos antes, quando o visitei em sua casa no Rio de Janeiro. Estava escrevendo com Luciana Medeiros uma biografia da pianista Guiomar Novaes. Freire a adorava. Se sobre si costumava silenciar, sobre ela falava com desenvoltura.

Ele me mostrou gravações raras, que só ele tinha. Descrevia cada passagem, maravilhava-se. Subimos para o seu estúdio, onde guardava os pianos de Guiomar. Abriu um pequeno armário e de lá não parava de tirar documentos, programas antigos, cartas. Colocou todo o acervo à disposição, me deixou copiar gravações. Uma generosidade que, durante a pesquisa para o livro, raramente encontramos.

Nelson Freire na casa da família em Boa Esperança, no interior de Minas Gerais (Foto de João Luiz Sampaio)

De volta à Sala Minas Gerais, ele me mostrou sua antiga partitura do concerto de Beethoven. Falamos do compositor, da peça. Mas a cabeça do pianista parecia já estar a mais de duzentos quilômetros dali, em Boa Esperança. “Você também vai estar lá?”, ele me perguntou. Disse que sim. “Acho que é a primeira vez que uma orquestra toca lá”, contou. “Vai ser corrido, tem muita família para encontrar.” Era família grande, com muitos primos. “E eu me divertia com eles. Eu adorava andar a cavalo, tomar banho no córrego, partir minhoca no meio e ver as metades se mexendo. Os primos matavam passarinho com estilingue, mas isso eu não gostava. Só teve uma vez que eu tirei as asas de uma mosca, fui olhar com uma lente e acabei queimando a bichinha.”

Naquela noite, Freire tocou o concerto de Beethoven com a Filarmônica de Minas Gerais. Acompanhei a apresentação dos bastidores. Quando saiu do palco, perguntou se eu havia gostado. O que se diz numa hora dessas? Balbuciei algumas palavras antes que ele voltasse para o bis. Em seguida, foi direto para o camarim. Estava com pressa. Lá fora, um carro o esperava. Dali mesmo, Freire já sairia para Boa Esperança.

***

Três anos antes, Nelson Freire havia feito uma visita a São João del Rei. A cidade, mais especificamente seu Teatro Municipal, abrigara seu primeiro recital público. Dia 31 de maio de 1950. O pianista tinha então cinco anos de idade. A paisagem agora era outra. A leiteria tornou-se uma agência bancária; do Hotel Hudson sobrou só a fachada; no que era o Café Rio de Janeiro, agora existia uma loja de departamentos.

Mas na sala ao fundo do teatro, um objeto seguia como testemunha do tempo. Contra todas as probabilidades, ali estava ainda guardado o piano daquela primeira apresentação de Nelson Freire. O som veio bem leve, quase imperceptível. Era Mozart. Discretamente, desviei da equipe do teatro e fui atrás da música. Nelson Freire estava ali tocando. Cheguei perto, esperando que ele terminasse. “Jamais imaginei encontrar o piano”, ele disse, lembrando daquele primeiro recital. “O que eu me lembro mais, na verdade, era da preocupação do meu pai. Ele queria que eu dormisse à tarde, para não ter sono à noite, durante a apresentação. Mas, imagina, eu não dormia de jeito nenhum.”

[Era algo interessante que acontecia nas entrevistas com Freire. Quando não queria falar, pronto. Mas, quando falava, não tinha nada de treinamento de mídia, respostas repetidas. Do jeito dele, era um excelente entrevistado.]

No dia seguinte, Freire fez um recital no teatro. Com outro piano, mas com repertório que trazia algumas das peças tocadas na estreia. Foi um acontecimento. Na saída da apresentação, conversei com uma senhora que mal controlava as lágrimas. Havia assistido aquele “menino lindo” mais de sessenta anos antes. “Agora é um senhor lindo. É um dos maiores do mundo, sabia? Ninguém toca Chopin melhor do que ele. N-e-l-s-o-n F-r-e-i-r-e. Dá nem para acreditar que eu ia voltar a ver ele aqui nesse teatro.”

***

A nova viagem também o levava em direção à infância. Desta vez, tocaria com a Filarmônica de Minas Gerais em Boa Esperança, sua cidade-natal, sob regência de Fabio Mechetti. O concerto integrava a série itinerante do grupo. E celebrava os 70 anos do pianista.

Foi ele que exigiu que a apresentação se desse ao ar livre, para que o máximo de pessoas pudesse assistir. Um palco que, na manhã da apresentação, ainda estava sendo montado. No ponto de táxi, Rogério observava o movimento. “Disseram que serão três mil cadeiras, mas acho que não vai dar não. O pessoal da cidade tá ansioso. O povo aqui não é bobo, não, tem bom gosto. E o homem é filho da terra.”

Foi Rogério que me deu as pistas do Roteiro Nelson Freire de Boa Esperança, ali na “cidade antiga”, como chamam os moradores. Tudo começa atrás da igreja, onde está o terreno que um dia abrigou a farmácia Freire & Silva, do pai do pianista. A casa não existe mais, mas uma placa conta que ali nasceu Nelson Freire. Você então sobe a Rua Direita, e logo cruza com a Rua Nelson Freire – a homenagem foi feita quando ele ainda era menino, com nove anos de idade. No quarteirão seguinte, fica o Radium Club, onde fez alguns recitais antes de ir embora para o Rio de Janeiro. E alguns metros adiante, você encontra a casa da Tia Marinha, mãe da prima Janice.

Nelson Freire estava hospedado ali. Na porta, Polliane Eliziário, assessora da filarmônica, toureava a imprensa. Mas deu um jeito de avisar que eu estava ali. E entramos. Na cozinha, irmãos, primos, sobrinhos, sobrinhos netos. Uma barulheira danada em torno da mesa do almoço. De bermuda e camiseta, o pianista divertia-se. O Dr. Fiúza, “jornalista e advogado”, me puxou pelo braço e me levou a uma pequena sala na parte da frente da casa. “É a Sala Nelson Freire”, me explicou. Fotos, discos, e um piano antigo. “Eu mandei afinar, já que o Nelson ia ficar aqui e a gente sabe que ele sempre gostar de poder estudar.” Não deu nem tempo de perguntar, pois logo o próprio pianista se juntava a nós. “Viu o piano? Foi nele que eu aprendi o Concerto de Grieg.”

Sentamos para uma nova conversa. “Depois de mudarmos para o Rio, voltávamos para passar as férias. Era muito gostoso, mas eu precisava estudar também. Tinha essa casa, da Tia Marinha, com um piano. A Tia Marinha era mais séria, organizada, com uma babá muito brava, então era o lugar certo para estudar”, ele contou, divertindo-se com a lembrança. “Já na casa da Tia Marília, a gente podia fazer o que quisesse. A babá era ótima, a Marilda.” E também cozinhava muito bem. “Era uma comida maravilhosa. Eu era uma criança doente, tinha muitas alergias, então era difícil de comer. Mas tinha duas coisas de que eu gostava em particular: palmito e ameixa. E arroz, feijão e linguiça. Linguiça de Boa Esperança, que era uma delícia.” Depois de um pouco mais de prosa, Freire pediu licença para ir descansar, afinal, ia tocar à noite.

Sete mil pessoas assistiram ao concerto naquele dia. Freire tocou o Beethoven, voltou ao palco mais duas vezes. Ao final de sua participação, enquanto a orquestra e Mechetti tocavam Wagner, Carlos Gomes, Tchaikovski e Serra de Boa Esperança, de Lamartine Babo, Freire sentou-se em uma caixa de madeira no fundo do palco. Fui até ele. Desta vez, não perguntou seu eu havia gostado. “Você acha que eles gostaram?” Muito, Nelson. “Você viu o silêncio que fizeram? E a lua, pairando sobra a plateia?” Não lembro se estava cheia. Mas quero acreditar que sim.