Com guerra na Ucrânia, Valery Gergiev e Filarmônica de Viena são lembrados de que arte e política se misturam

Com guerra na Ucrânia, Valery Gergiev e Filarmônica de Viena são lembrados de que arte e política se misturam

Exigência de pronunciamento contra a guerra mostra que o talento e a excelência não servem mais como desculpas para exonerar artistas do que fazem nos bastidores dos teatros e que buscar o mais alto nível artístico não exclui a responsabilidade de enxergar o mundo que temos à nossa volta

João Luiz Sampaio

25 de fevereiro de 2022 | 18h12

O maestro russo Valery Gergiev recebeu nos últimos dois dias três ultimatos. Sua relação próxima com o presidente russo Vladimir Putin levou três orquestras a exigirem dele posicionamento claro contra a guerra na Ucrânia, condenando a iniciativa russa.

A Filarmônica de Munique, da qual é regente titular; a Filarmônica de Roterdã, que realiza anualmente o Festival Gergiev; e o Teatro Alla Scala de Milão, onde regeria uma produção da ópera A dama de espadas, de Tchaikovsky, afirmaram que, se o maestro não se posicionar publicamente até segunda-feira, será demitido.

Vladimir Putin, Plácido Domingo e Valery Gergiev em celebração do aniversário de 60 anos do maestro (Reprodução/YouTube)

Vladimir Putin, Plácido Domingo e Valery Gergiev em celebração do aniversário de 60 anos do maestro (Reprodução/YouTube)

Até agora, e escrevo no final da tarde desta sexta-feira, dia 25, Gergiev não havia se posicionado. Outros, no entanto, acharam por bem falar. A soprano Anna Netrebko, ela também protegida de Gergiev e próxima de Putin, cancelou um concerto na Dinamarca depois do governo questionar sua ligação com o presidente russo.

E emitiu um comunicado escorregadio ao lado do marido, o tenor Yusif Eyvazov. No texto, dizem que esses são dias tristes e externam preocupação com o bem-estar de todos os envolvidos. “Toda a guerra é uma tragédia terrível. Esse não é o momento de música, mas de reflexão e orações. Então esperamos e rezamos por uma solução rápida e pacífica.”

Depois do início de uma guerra, não há mais solução que se possa chamar de pacífica, obviamente. Mas, vá lá, é difícil ser obrigado a fingir dizer o que não se pode ou quer dizer.

A questão talvez seja simples. Gergiev pode manter-se fiel a suas opiniões políticas e não se pronunciar contra o conflito. E, da mesma forma, as instituições que o tem como líder artístico têm direito à conclusão de que, por isso, não o querem mais por perto. É o que fica subentendido nas manifestações de Munique e Roterdã.

O caso da Filarmônica de Viena, no entanto, é mais complicado.

Logo após o início da guerra, quando foi questionada sobre a presença de Gergiev em uma viagem aos Estados Unidos, para concertos no Carnegie Hall, o grupo emitiu comunicado no qual afirmou que cultura e jogos políticos não se misturam e que não falaria sobre opiniões dos artistas com os quais se envolve. A nota termina assim: “Não há nada mais a dizer sobre essa questão.”

Aparentemente, havia. Horas depois, o Carnegie Hall anunciou que, após consulta com a orquestra, o maestro Gergiev seria substituído por Yannick Nézét-Seguin nos concertos da filarmônica previstos para o teatro. Não é necessária muito imaginação para entender os motivos, mas é simbólico que eles não tenham sido divulgados oficialmente – o comunicado apenas informa a mudança.

A imprensa norte-americana levantou algumas informações. A troca teria sido sugerida por patrocinadores, preocupados com possível impacto em suas marcas. E, por outro lado, o conselho de administração do Carnegie Hall chegou à conclusão de que uma manifestação do lado de fora do teatro, como vinha sendo anunciada, não pegaria bem.

Seja como for, a filarmônica mudou de ideia. Se foi por pressão de patrocinadores, parece que a conclusão de que a crença na separação entre arte e política, tão defendida no comunicado da manhã, não resiste a perdas financeiras. Se foi por uma reflexão mais profunda a respeito da questão, não reconhecer o erro é apenas arrogância. Se foi tudo uma questão de marketing, a imagem do grupo não melhor lá muito.

Uma obviedade: o mundo mudou desde que a filarmônica foi criada, ainda no século 19. Nos últimos anos, em especial o mundo música clássica começou a enfrentar o fato de que o preconceito racial ou de gênero faz parte de seu cotidiano. Artistas como Plácido Domingo, Charles Dutoit, Pinchas Zukerman, Vitorio Grigolo ou Danielle Gatti perderam contratos por conta de denúncias de assédio sexual e preconceito. Declarações como a dada recentemente por um dos diretores do Carnegie Hall, para quem “artistas devem ser julgados apenas por seus trabalhos artísticos” já não colam mais. Soam antigas. E reacionárias.

Por trás desses episódios, está justamente uma mudança nessa percepção: o talento e a excelência não servem mais como desculpas para exonerar artistas daquilo que fazem nos bastidores de orquestras e teatros.

Buscar o mais alto nível artístico não exclui a responsabilidade de enxergar o mundo que temos à nossa volta. A arte pode nos transportar a diferentes realidades, mas não é biombo atrás do qual possamos nos esconder.

Não há motivo para imaginar que a Filarmônica de Viena seja cancelada ou alvo de boicotes. Mas o grupo não sai bem do episódio. Sai, ao contrário, como mais um exemplo de como o mundo da música clássica acredita, em muitos casos, que não deve satisfações a seu público ou à realidade à sua volta.

Para que tanta arrogância?