Coisas da ópera, no pé da serra

Coisas da ópera, no pé da serra

João Luiz Sampaio

24 de agosto de 2009 | 15h58

Teatro Guarany/Santos

Dei um pulo em Santos no final da tarde de sábado para assitir à primeira apresentação da série “Ópera Contada e Cantada”, no Teatro Guarany. Gostei do que vi. A ideia é, basicamente, apresentar trechos de óperas, mas buscando um novo formato, diferente do das vesperais líricas, em que um narrador apresenta as cenas. Na concepção do diretor Cleber Papa, é um personagem que narra a história. E isso ajuda a dar dinâmica à ação, ao lado da utilização de cenários e figurinos. Na “Butterfy” que vi sábado, a narradora foi Suzuki. Na ópera de Puccini, ela acompanha o drama de Butterfly, que espera pela volta de Pinkerton, uma volta que nós sabemos improvável, em silêncio. Chora por dentro a cada sinal de esperança da companheira. No espetáculo de sábado, no entanto, ela se abre. Oferece seu olhar para a história. E isso é um recurso interessante, não apenas porque dá integridade à ação mas porque sua presença, ora como narradora, ora como personagem, ajuda a ressignificar a trama. É só a gente pensar: se em vez de Suzuki, fosse Goro, o casamenteiro que negocia gueixas, o narrador, a história ganharia novos significados, novos pontos de vista. É uma maneira interessante de apresentar a ópera a quem não a conhece e, para o público acostumado aos grandes títulos, fica a possibilidade de revisitá-los sob novos prismas.

O Teatro Guarany é uma pequena jóia. No centro de Santos, foi inaugurado em 1882 e, ao longo do século 20, foi usado até como cinema pornô. No ano passado, foi restaurado e reinaugurado. Não é um teatro grande, mas muito charmoso, sua fachada nos transporta imediatamente para o século 19. No sábado, estava lotado. E perguntar não ofende: quantos outros espaços não existem assim pelo estado de São Paulo? Mais: um projeto como esse tem tudo para ser itinerante – e, se o governo do Estado fala tanto na necessidade de levar ao interior espetáculos de qualidade (foi uma das grandes brigas, por exemplo, da secretaria com a Osesp, que agora faz turnês anuais pelo Estado), o que se está esperando para fazer o Ópera Contada e Cantada viajar? Há planos nesse sentido? Outros títulos?

E por falar em ópera – e em Santos –, não podemos esquecer do Teatro Coliseu. É outra jóia no centro da cidade, restaurada há alguns anos. Está equipado para a ópera. Até agora, no entanto, nada. Santos é uma das maiores cidades do Estado – e do País; tem orquestra; tem um dos mais talentosos maestros em atividade no Brasil, Luis Gustavo Petri. Estamos esperando o que exatamente? Conversando com o pessoal da cidade no sábado, ouvi que o Coliseu ainda tem problemas, em especial no fosso da orquestra, que inunda por questões técnicas. O Estado investiu R$ 20 milhões na restauração do prédio, que durou cerca de 10 anos. Não está na hora de finalizar de vez a obra e colocar o teatro para funcionar em suas múltiplas possibilidades? Enfim, perguntas, perguntas…

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