Coisa atrapalhada

João Luiz Sampaio

21 de abril de 2009 | 13h50

Cimino não concorda comigo sobre Andre Bocelli. Acha que trabalhos como o dele, no final das contas, acabam atraindo público para a ópera. “A pessoa vai, ouve o Bocelli, depois fica sabendo que tem uma ópera na cidade e, quem sabe, aparece pra conferir.” Já Luana acha que não. Mas pergunta: “O que você achava dos 3 tenores? Por acaso eles atraíam novo público para a ópera? Eu acho que não, porque na verdade vendia uma versão pop das músicas, o que não é a mesma coisa. De qualquer forma, não vejo isso como algo negativo. Melhor isso do que nada.” O que acho dos Três Tenores? São casos diferentes. Bocelli não era um cara da ópera, sempre foi uma mistura de tenor e cantor romântico. Já nos Três Tenores, a graça toda estava no fato desses três caras ligados à ópera se aventurarem fora do seu habitat comum. Além disso, de alguma maneira, o projeto acabou devolvendo ao tenor o status de ícone cultural. Para falar a verdade, eu curto a série de concertos dos três – acho divertido eles se digladiando com as partituras de peças como “My Way” ou “Aquarela do Brasil”, para não falar daquelas canções em que eles competiam para ver quem segurava por mais tempo as notas agudas. Mas, de novo, acho que na maior parte dos casos, o que se cria é um público para um novo gênero, o tal do crossover, que, depois da reunião de Carreras, Domingo e Pavarotti, passou a ser considerado pelas gravadoras o caminho para a sobrevivência. O crítico inglês Norman Lebrecht, autor do epitáfio da indústria de CDs clássicos, analisa a coisa da seguinte forma: se a ópera não vende, a gente cria um outro gênero, no meio do caminho, que não assuste o público em geral e, ao mesmo tempo, mantenha uma certa aura de sofisticação, sempre bem-vinda. Só um detalhe: não deu certo, afinal é um filão que não agrada o público fiel da ópera e é visto com distanciamento pelo público em geral. Coisa atrapalhada, não?

Tendências: