Claudio Santoro, praticamente inédito

Claudio Santoro, praticamente inédito

Vídeo mostra pequeno trecho de ensaio no qual o maestro e compositor Claudio Santoro rege sua Sinfonia nº 7, Brasília, na Alemanha; em 2014, seus 95 anos, e 25 anos de morte, passaram quase em branco; suas sinfonias esperam resgate

João Luiz Sampaio

11 Dezembro 2014 | 17h49

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Por acaso, me deparei outro dia, no YouTube, com um vídeo em que, na Alemanha, o maestro e compositor brasileiro Claudio Santoro ensaia a estreia da sua Sinfonia nº 7, Brasília, com a Sinfônica da Rádio de Berlim. A gravação, de 1º de outubro de 1964, faz parte de um programa argentino, que realiza a cobertura da Semana Latino-Americana. Antes do começo do ensaio, Santoro dá um baile no repórter:

– Maestro Santoro, você dirige pela primeira vez e faz ouvir pela primeira vez ao mundo inteiro sua sétima sinfonia. Poderia nos dizer qual o contato espiritual do músico europeu, do músico alemão, com nossa música latinoamericana?

– Muito bom.

– Diga-me, você executa em todos os seus concertos na Europa, em suas turnês de concerto, música latino-americana, verdade?

– Sempre.

– E qual a reação do público?

– Em geral, muito boa.



O vídeo é curto, mas é interessante ver Santoro regendo uma obra sua, ainda que por pouco mais de dois minutos. Outros registros como esse devem existir, afinal Santoro esteve à frente do Teatro Nacional, em Brasília, e da orquestra da capital, por mais de dez anos, até 1989. Mas não encontrei nada no YouTube.

Mas, por curiosidade, fui até os jornais tentar encontrar algo sobre esse concerto de 1964. E encontrei, no Acervo Estadão, uma matéria de fevereiro de 1965. O gancho era a partida de Santoro para os EUA, onde apresentaria suas obras como parte da Conferência Interamericana de Compositores. Nela, o articulista reproduz trechos de uma crítica do jornal Die Welt a respeito da apresentação do ano anterior:

“Fundamentalmente, Santoro rompe com a ideia de que a música brasileira deve ser enraizada no folclore. Folclóricos que poderemos encontrar no Scherzo devem ser entendidos no sentido de um Bartok, quer dizer, não como uma aceitação direta ou cópia, mas como uma redução construída sobre substâncias melódicas básicas e sons que o compositor trabalha, na sua arte nova e pessoal, como pedra angular, indo, deste modo, muito além dos limites nacionais. O compositor, que também como regente é um músico de envergadura, dirigiu sua obra com muita vida e convicção.”

A oposição entre o início dodecafônico e a guinada nacionalista normalmente pauta a percepção que se tem da obra de Santoro – além, claro, da profusão de canções que estão no centro do cancioneiro de câmara brasileiro. Mas, para mais de um autor, a chave para compreender a modernidade de seu pensamento musical está justamente em suas sinfonias. A Osesp, em 2006, começou um plano para gravar o ciclo completo, com John Neschling e as de nº 4 e 9. A estreia da nº 7, na Alemanha, foi gravada e distribuída, há vários anos, mas sem edição comercial. E circulou, durante um tempo, pelo selo Festa, uma gravação da Quinta, com o próprio Santoro regendo, em 1958, no Teatro Municipal do Rio. Em outras palavras, são três discos de um total de quase 110 catalogados pelo site oficial do compositor. E apenas o da Osesp está de fato disponível.

Dizer que é pouco nem começa a dar conta do quanto Santoro é um dos autores mais injustiçados pela nossa célebre falta de memória. Pena que, em 2014, seus 95 anos de vida – e 25 de morte – tenham passado praticamente em branco.

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