Carmen, loucura, amor

Carmen, loucura, amor

João Luiz Sampaio

09 de outubro de 2009 | 19h37

Jon Vickers e Grace Bumbry na cena final de Carmen

Eu descuidei de meu diário de viagem mas agora há pouco, sei lá por que razão, durante uma reunião aqui na redação, a música da “Carmen” começou a insistir dentro da minha cabeça. Não sei bem o que acontece, de verdade, mas também desencanei de tentar entender a todo instante de onde – e por que – vem certas músicas, se materializando do nada na cabeça. Enfim, falemos então de Carmen. Assisti em Praga uma montagem da ópera de Bizet com elenco todo checo. A Fabiana, que seguiu passos parecidos na recente viagem que fez à Europa, deixou aqui comentário dizendo que não gostou dos cantores desta “Carmen” que, pelo jeito, assistimos juntos, no mesmo dia, sem saber. E, para ser bem sincero, os cantores eram mesmo bem fraquinhos, cheios de maneirismos, um pastiche de todas aquelas interpretações a que nos acostumamos em gravações. Mas com uma ressalva – as vozes são uns canhões, a técnica, impecável. A montagem em si era bem tradicional, até demais para o meu gosto, mas funcionava. O mais interessante, no entanto, é perceber a universalidade das coisas: Carmen é Carmen em português, francês ou checo. E a cada vez que ouço a ópera me divirto com novas possibilidades de interpretação. No fundo, eu piro sempre é no personagem de d. José. O cara enlouquece perante a paixão por Carmen ou perante a completa incapacidade de lidar com o amor ou qualquer sensação que tira nosso chão? O amor pode nos fazer voar; ou levar um tombaço, se não entendemos ou aceitamos o prazer e os riscos de fugir das sensações cotidianas em direção ao arrebatamento. E não dá para dizer que ele estivesse com a vida feita antes da chegada de Carmen, que teria sido a responsável por bagunçar tudo. Certo, são estereótipos, mas há uma clara oposição entre ele – o homem correto, de família, capaz de amar – e o toureiro Escamillo, que encarna a liberdade, o risco, a coragem, tudo isso associado a virilidade. Em outras palavras, o cara tem questões sérias sobre si mesmo. E isso fica claro no dueto final, quando do lado de fora da arena d. José implora a Carmen que lhe aceite de volta enquanto, lá dentro, gritos do público nos informam do triunfo de Escamillo perante o touro. A cena, aliás, me faz pensar: d. José ainda a ama ou associa a ela tudo o que de mal lhe aconteceu e, portanto, quer estar novamente ao seu lado, em uma tentativa de apagar os erros passados? O amor pode muito bem ser um prolongamento da tentativa de amar a si mesmo, ou a prova do desprezo e da incapacidade de lidar com nós mesmos, não?

[kml_flashembed movie=”http://www.youtube.com/v/h5ZSAHqsoeY” width=”425″ height=”344″ wmode=”transparent” /]

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: