Camila

Camila

João Luiz Sampaio

19 de outubro de 2019 | 00h53

Camila Molina e eu começamos praticamente juntos no Caderno 2, ela como repórter de artes visuais, eu escrevendo sobre música clássica e ópera.

Foi um lugar, um momento, especial para dar os primeiros passos no jornalismo cultural.

A equipe estava repleta de veteranos. Todos com suas idiossincrasias. Todos grandes mestres. Cada reunião de pauta era uma aula. Longa, cansativa. Mas uma aula para quem, como nós, ainda na faculdade, estava apenas começando.

Havia um sentido de responsabilidade, um respeito pelo espaço do jornal, pelos temas abordados. E a gente aprendia como podia.

Só que a Camila virou mestre muito rápido. Cada matéria era resultado de longa pesquisa, reflexão. Ficava chateada quando achava que não “tava dando conta” (ainda dá para ouvir o sotaque mineiro).

Era exagero. Mas compreensível. Porque algumas coisas ela não negociava: levava muito a sério a tarefa de traduzir em palavras para o leitor o trabalho e as ideias dos artistas que entrevistava, de revelar mundos a partir das obras que observava.

As conversas sobre entrevistas e exposições podiam durar horas, com um bom “vino”. Mas nunca eram suficientes. A arte e o mundo estavam em constante movimento, transformação, assim como a compreensão sobre eles, nunca cristalizada, sempre em construção.

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Camila tornou-se rapidamente um nome respeitado no meio das artes plásticas. Mas entendia de cinema, de literatura, de teatro. E de música. A gente costumava ouvir algumas gravações juntos. Um dia ela encasquetou com o início da segunda cena do segundo ato da ópera A Valquíria, de Wagner, quando um interlúdio orquestral leva o ouvinte à floresta onde Siegmund e Sieglinde fogem da vingança de Hunding. Naquele CD, era a faixa 10, gravação de Georg Solti. Ela ouvia sempre; decorou o texto em alemão, cantava baixinho.

Ópera italiana não era muito sua praia. Gostava de Wagner. De Mahler. Quando quis conhecer as Quatro últimas canções, de Strauss, mostrei a gravação com Jessye Norman – mas logo ela apareceria perguntando de Elisabeth Schwarzkopf. Em Mahler, também tinha suas preferências. Eu já nem me metia mais. Ela só não negociava a faixa 10. Valquíria, só tinha aquela. Ponto.

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Camila era uma colega de trabalho generosa, cativante. Uma amiga incondicional, mas ficava brava quando a gente provocava, falando que Musambinho e Guaranésia eram maiores do que sua Guaxupé natal, que ela mostrava aos visitantes com orgulho, mas um orgulho de quem a certa altura se deu conta de que precisava também conhecer o mundo. Ouvia, sempre. E, quando precisava falar, era com cuidado e respeito (mas com um sorriso de lado cuja mensagem a gente entendia até do outro lado da redação).

Nunca perdeu a capacidade de se emocionar. Ou de acreditar no que fazia, ou seja, em um jornalismo cultural de qualidade (tema também para horas e horas de discussão, repleta de urgência, como se dependêssemos daquilo – e, de certa forma, dependíamos). Quando o cinismo batia à porta, e numa redação acontece, era na nossa. Jamais na dela.

Descobrir, para ela, não era só prazer. Era necessidade. A delicadeza era autêntica. A sensibilidade, quase grande demais para suportar. Mas ela dava conta. Dava um jeito de moldar o mundo à sua maneira. E, com sua relação com a arte, ela o tornava mais fascinante, complexo e, ainda assim, fácil da gente entender.

Camila nos deixou hoje no começo da noite, aos 38 anos.

Alguns textos a gente não deveria nunca ter que escrever.

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