Cadê o sir John Falstaff?

João Luiz Sampaio

23 de abril de 2009 | 23h45

É incrível como há obras que não param de nos surpreender. “Ninfas, Elfos, Sílfides…” – no terceiro ato de Falstaff, de Verdi, apresentado pela Osesp na quarta-feira, enquanto Nanetta evoca as figuras míticas, na verdade personagens da ópera fantasiados para pregar uma peça em Falstaff, o Thales, frequentador assíduo da Sala São Paulo, virou e comentou: “Isso é Mahler puro”. Violinos e violas em tremolo, clima etéreo pontuado por intervenções delicadas de oboés, corne inglês e clarinetes… Como é fascinante encontrar na música de um homem com quase 80 anos o frescor da busca por algo novo, pela reinvenção da linguagem operística.

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A comparação com a música de Mahler aparece indiretamente em Julien Budden, grande especialista na obra de Verdi. Ele não cita o compositor austríaco, mas anota que Verdi é capaz, em Falstaff, de usar os mais sofisticados recursos harmônicos, como na cena da evocação de Nanetta. Mais: identifica na partitura um movimento no qual pesados gestos românticos dão lugar a uma leve ironia. “Nascido no fim de um século romântico, Falstaff olha por cima e ultrapassa o romantismo”. Fascinante, no entanto, é como ele constrói essa ultrapassagem ópera a ópera, a cada nova cena. É um caso excepcional de coerência estética e da busca profundamente pessoal de elementos que dialoguem e, ao mesmo tempo, consigam ultrapassar a tradição, herdada sem pesos.

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A regência de Isaac Karabtchevsky foi feliz na maior parte da noite. No primeiro ato, os tempos pareceram um pouco lentos, arrastando a dinâmica e a pegada cênica do espetáculo. A partir do segundo ato, no entanto, a orquestra cresceu na execução, pontuando as sacadas narrativas da partitura verdiana, reforçando e dando sustento à atuação dos cantores. E, no terceiro ato, o melhor da noite, o mais coeso, ficou clara a preocupação do maestro com o equilíbrio entre as passagens de todo orquestral e outras quase camerísticas – é nesse ponto, afinal, que está um dos pontos mais caros a Verdi, a colocação, lado a lado, de cenas individuais e de conjunto, alusão ao convívio social e seus dilemas. A sequência final foi construída de modo a oferecer um clima perfeito para os cantores em um momento em que a narrativa ganha cores mais escuras, levando, em seguida, à luminosidade do “Tutto nel mondo è Burla”.

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A ironia da partitura e a sofisticação da escrita fazem de Falstaff um personagem especial dentro da galeria de tipos criados pelo compositor. Um velho glutão e falido acreditando na possibilidade de enriquecer e melhorar de vida por meio da conquista de duas belas mulheres da sociedade. Há ironia, uma certa decadência, ilusão, sofrimento, paixão pela vida. Tudo isso em um só personagem, cuja escrita vocal dá margem à criação de diversos recursos e trejeitos. Na enorme discografia disponível, há Falstaffs tristes e outros cômicos e alegres – as melhores, no entanto, são as que conseguem unir os dois espíritos. Por tudo isso é que decepcionou a interpretação oferecida pelo barítono Albert Schagidullin. Seu timbre é pouco generoso, seco, sem coloridos. A voz é pequena e, na maior parte do espetáculo, inaudível. No palco, ele se comporta como um Don Juan afetado. Há, claro, em Falstaff a febre pela conquista. Mas ele é tão mais do que isso… Seu Falstaff é tedioso, soa como um pretenso herói romântico e não como o símbolo do fim de uma era.

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O restante do elenco é bastante homogêneo. A surpresa da noite foi o barítono brasileiro Leonardo Neiva, que substituiu, em cima da hora, Marco Felice no papel de Ford. Sua ária “È sogno, o realtà” foi ponto alto do segundo ato, depois do interessante dueto com Falstaff. Destaque também para Marcos Thadeu e Pepes do Valle como Bardolfo e Pistola e para o belo Fenton de Danil Schtoda. Entre as mulheres, saíram-se melhor Denise de Freitas (Meg) e Anna Kiknadze (Sra. Quickly); Marisol Montalvo (Nanetta) tem agudos belíssimos, cheios, encorpados, sensuais, mas nas regiões média e grave tem problemas sérios de emissão. Inna Los, como Alice, foi apenas correta. A ambientação cênica de André Heller-Lopes funcionou bem, sem grandes interferências, sugerindo mais do que descrevendo a ação. Foi em especial bem realizada a cena final, com a projeção da floresta ao fundo.

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