Bernard Haitink rompe com a Concertgebouw

Bernard Haitink rompe com a Concertgebouw

João Luiz Sampaio

07 de março de 2014 | 15h42

O maestro Bernard Haitink

 
O maestro holandês Bernard Haitink resolveu, no começo da semana, romper relações com a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã. Ele dirigiu o grupo de 1961 a 1988. Mas não gostou de, no ano passado, não ter sido convidado para nenhuma das comemorações pelos 125 anos da orquestra – que incluíram, além de concertos especiais em Amsterdã, turnês por todos os continentes (no Brasil, eles tocaram em São Paulo e no Rio). Haitink tentou até devolver o título de Regente de Honra, recebido em 1991, mas a orquestra, em comunicado oficial à imprensa, disse que não aceitaria a honraria de volta.

A posição da administração da orquestra, basicamente, é a de que Haitink está exagerando. Os músicos pediram a ele que levasse em conta que a sua relação é com os artistas e não com a direção. Haitink disse concordar, mas ainda assim não voltou atrás. Se a orquestra, como instituição, não o acha importante o suficiente, então ele se retira da vida do grupo.

Lembrei da visita que fiz no ano passado ao Concertgebouw. Durante o tour oficial pelo teatro, paramos em uma sala na qual havia a foto de todos os diretores da história do grupo. O guia, muito divertido, foi falando de cada um deles. Quando chegou a vez de Haitink, emendou: “Ele foi importante para nós mas, vocês sabem como funciona, maestro holandês à frente de uma orquestra holandesa…Não tem muita graça. Então, resolvemos procurar um regente estrangeiro, o italiano Riccardo Chailly. Foi bom por um tempo, até que chegamos ao formato ideal: Mariss Janssons, um maestro estrangeiro, com nome de holandês.”

Brincadeiras à parte, o fato é que Haitink é, entre os maestros de sua geração – ele completa 85 anos em 2014 – se não o mais, um dos mais subestimados. No Festival de Salzburgo, em 2011, falava-se o tempo todo de Riccardo Muti, Christoph Eschenbach, Yannick Nezet-Seguin (a estreja jovem do momento), mas os melhores concertos que vi da Filarmônica de Viena foram os comandados por ele, com destaque para seu Bruckner – nunca havia ouvido um equilíbrio tão impressionante entre os naipes de uma orquestra, a serviço de uma interpretação cheia de frescor (na ocasião, o entrevistei para o Caderno 2, leia aqui o texto).

Mesmo que deixemos de lado sua integral de Mahler, suas gravações de Bruckner, e os poucos e interessantes registros que fez do repertório operístico quando dirigiu a Royal Opera House de Londres, poderíamos lembrar que, nos últimos anos, Haitink lançou também uma integral de Beethoven, gravado ao vivo com a Sinfônica de Londres – e me arrisco a dizer que sua versão é superior à mais comentada e celebrada de Chailly, de 2012, com a Gewandhaus de Leipzig.

Enfim, são coisas de mercado – e é preciso lembrar que a geração de Haitink é a mesma de Leonard Bernstein, Herbert Von Karajan, Kurt Masur, Lorin Maazel, ou seja, não faltaram estrelas com as quais foi preciso competir. E, vá lá, talvez Haitink esteja mesmo exagerando e poderia atender ao chamado dos músicos, que parecem ter ficado de seu lado. Agora, custava convidar o Regente de Honra para as comemorações de aniversário da orquestra?

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