Berlim sem maestro. E nós com isso?

Berlim sem maestro. E nós com isso?

Indecisão dos integrantes da Filarmônica de Berlim sobre novo diretor da orquestra parece sugerir um mundo musical que passa - ou precisa passar - por transformações

João Luiz Sampaio

12 Maio 2015 | 16h04

podium

Cerca de 120 músicos da Filarmônica de Berlim se reuniram ontem, segunda-feira, para escolher o maestro que, a partir de 2018, vai ocupar a vaga de regente titular da orquestra. Pela importância do cargo, e pelo contexto da votação, a eleição lembrou os conclaves, realizados para eleger novos papas. A votação ocorreu em um local secreto que, mais tarde descobriu-se, era a Igreja de Jesus Cristo, para onde os jornalistas correram ao longo do dia. Os músicos foram convidados a deixar na porta celulares, smartphones, tablets, enfim, qualquer possibilidade de comunicação com o mundo exterior. Ao menos uma delas não teria obedecido: no começo da tarde (horário de Brasília), Sarah Willis disse, no Twitter, que Andris Nelsons era escolhido. A notícia foi logo replicada pela revista Gramophone – e negada pela orquestra, que, também no Twitter, afirmou que nenhuma decisão havia sido tomada ainda. Não estavam mentindo: depois de onze horas, fumacinha preta – os músicos não chegaram a um acordo e resolveram realizar novas eleições em até um ano.

A eleição do novo maestro a assumir a Filarmônica de Berlim sempre movimenta o meio musical. Há semanas o tema tem sido discutido na imprensa internacional. E, desta vez, o suspense foi ainda maior, uma vez que diversos candidatos prováveis estariam, por motivos dos mais diferentes, impossibilitados de aceitar um possível convite: Daniel Barenboim, sempre lembrado pelos críticos e esquecido pelos músicos, desta vez foi à imprensa dizer que não era candidato (o que não significa necessariamente que diria “não” caso fosse convidado); Mariss Jansons acabou de renovar seu contrato com a Orquestra da Baviera, assim como Gustavo Dudamel com a Filarmônica de Los Angeles; Yannick Nézet-Séguin, por sua vez, assinou com Filadélfia; o próprio Nelsons, no ano passado, disse se considerar jovem demais para o cargo (ele tem 36 anos) e é diretor da Sinfônica de Boston; e Riccardo Chailly, além do posto em Leipzig, acabou de assumir a direção do Teatro Alla Scala de Milão.

Mas a expectativa em torno da eleição tem um outro motivo. Nos últimos anos, diversas orquestras optaram por contratar regentes mais novos, na faixa dos 30 anos de idade. Juventude, é claro, não é necessariamente sinônimo de inovação. Mas a expectativa dos grupos é que estes maestros – e eles tem dado provas disso – sejam capazes de galvanizar músicos e plateias, atraindo novos públicos e patrocinadores, trocando a tradição do regente autocrata pela do maestro capaz de se comunicar de outras formas que não apenas pela interpretação musical. Foi assim em Nova York, Los Angeles, Boston, Filadélfia, Paris. E em Berlim? Os músicos seguirão pelo mesmo caminho?

Teremos que esperar mais um ano para saber. Mas a indecisão dos “filarmônicos” não deixa de ser interessante – e significativa. Recentemente, durante a Conferência MultiOrquestra, no Rio, um dos diretores da Filarmônica Alemã de Câmara de Bremen saiu-se com a seguinte frase: “O problema do mundo musical hoje não é a falta de ideias novas mas, sim, a dificuldade em abandonar ideias antigas”. Se os músicos ficaram divididos, como tem dito a imprensa internacional, entre Christian Thielemann e Andris Nelsons, parece clara a dúvida perante antigos e novos modelos. E que a Filarmônica, do alto de seus mais de 130 anos e do posto de melhor orquestra do mundo, tenha colocado para si esta questão é, no mínimo, sinal de que o mundo da música clássica passa – ou precisa passar – por uma transformação. Nesse sentido, a eleição interessa – e muito – a todos nós.

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