Beethoven no oriente

Beethoven no oriente

João Luiz Sampaio

03 de março de 2009 | 12h49

Filarmônica do Qatar/Divulgação

A Filarmônica do Qatar fez recentemente sua estreia internacional com um concerto em Nova York, regido pelo maestro Lorin Maazel. O grupo, composto de músicos de 31 países, em especial de jovens da Alemanha, Rússia e Áustria, é mantido principalmente pelo governo do país. O objetivo – utilizar a cultura como veículo para a venda do nome da nação mundo afora (além da orquestra, o Festival Tribeca de Cinema já foi importado para a capital Doha).

O Qatar não é o único no Oriente Médio a investir em orquestras. No ano passado, a “BBC Music Magazine” publicou artigo sobre a “invasão da música clássica” na região. Segundo o texto, com a abertura cada vez maior para o ocidente, países como Qatar, Emirados Árabes e Bahrain têm se mobilizado para construir salas de concerto – e orquestras e conjuntos musicais que possam ocupá-las. A história, claro, pode servir como microcosmos da relação ocidente/oriente, do embate, ou tentativa de diálogo, entre culturas. Mas, enquanto no resto do mundo as orquestras e teatros de ópera se descabelam em busca de soluções para ameaças como a falta de verba – e de público – não deixa de ser interessante observar a maneira como se dá o surgimento de um cenário musical, praticamente do zero.

Dinheiro, claro, não é problema. Em entrevista ao “New York Times”, membros europeus da Filarmônica do Qatar falam dos bons salários e condições de trabalho. E do objetivo de competir no mercado internacional, legitimando a iniciativa. Se a experiência dos últimos anos ensina alguma coisa, no entanto, é que a legitimidade que de fato conta é aquela da sociedade em que uma orquestra está inserida. Se a globalização, econômica ao menos, faz soar natural uma orquestra da Qatar tocando Beethoven, Brahms, etc, por outro lado faz do valor regional das manifestações algo cada vez mais precioso. E por valor regional não estamos falando apenas de compositores e músicos locais que, claro, devem ganhar espaço maior à medida em que a orquestra for se estabelecendo. A questão é outra: se é importante para o governo que sua orquestra viaje a Nova York e apresente um Beethoven de qualidade, tão ou mais importante deve ser tocar Beethoven em casa e sugerir o diálogo da tradição oriental com a ocidental. Promover a reflexão é um dos principais sentidos da Sinfônica. O Ocidente demorou para entender essa lição.

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