Balanço de 2009? Só em 2010

João Luiz Sampaio

31 de dezembro de 2009 | 00h34

Abaixo, o texto da retrospectiva publicada pelo Caderno 2.
Para todos, os votos de um feliz ano novo, com muita música, saúde e amor. Precisa mais? Tudo bem, pode até ser que sim – mas sem isso, que graça tem? Voltamos a nos falar em 2010.

O ano começou com uma bomba: John Neschling demitido da Osesp, após 12 anos de trabalho. É anunciada, então, a saída de Roberto Minczuk da direção artística do Festival de Campos do Jordão. No Rio, o Municipal fechado; e as obras da Cidade da Música embargadas. De volta a São Paulo, Municipal também em reformas, sem óperas… e Jamil Maluf deixa o cargo de diretor artístico. Neschling reaparece com uma companhia nacional de ópera; ao seu lado, o ministro Juca Ferreira, avisa: não deixa o ministério sem a criação de uma política específica para a área. Já é novembro. Abel Rocha é demitido da Banda Sinfônica, num lance anunciado como parte de um projeto de reestruturação do Teatro São Pedro. Chega? Ainda deu tempo de a Fundação Osesp anunciar Artur Nestrovski como novo diretor artístico e Yan Pascal Tortelier como regente titular. Não tem jeito. Depois de tantas mudanças e redefinições, o balanço de 2009 na música erudita precisa ser feito com os olhos voltados para 2010.

O primeiro ano da Osesp sem Neschling não foi a desgraça que tanto se alardeou – a orquestra segue obtendo bons resultados e a temporada de 2010 mantém o nível de anos anteriores. A chegada de Nestrovski, no entanto, é símbolo de um novo modelo de gestão, em que a direção artística é descentralizada. Vai funcionar? É ele o homem para o papel? É o tempo e o trabalho a partir de agora que vão dizer. E a Osesp segue na vanguarda da reinvenção da maneira de se estruturar orquestras no Brasil.

Em Campos do Jordão, a saída de Roberto Minczuk da direção artística era esperada desde que, no início do ano, o festival deixou de ser realizado pelo Centro Tom Jobim e passou às mãos da Santa Marcelina Cultura. O que se fala é em uma ênfase maior, a partir de agora, na área pedagógica e na música contemporânea. Mas cabe a pergunta: um festival pode prescindir de uma direção artística forte, chamativa?

A questão nos leva também ao Teatro Municipal de São Paulo. A secretaria Municipal de Cultura anunciou o plano de transformar o teatro em uma fundação. O projeto é antigo. Mas há um dado novo – não haverá um diretor artístico mas, sim, um conselho artístico formado por artistas dos corpos estáveis da casa. Não se sabe quando chega a fundação – e não há previsão de reabertura do palco. E, apesar da temporada de concertos na Sala Olido, o teatro não produziu óperas, sua função principal. Seria demais pensar em um palco alternativo?

Na semana passada, no Rio, depois de mais de um ano e diversos atrasos, a presidente da Fundação Teatro Municipal, Carla Camurati, anunciou a reabertura do palco para abril, com uma temporada que tem seis óperas e quatro balés, além da programação de concertos. Em terras cariocas, no entanto, resta ainda uma incógnita: a Cidade da Música. A decisão de terminar as obras, embargadas no início do ano por suspeitas de irregularidades, é auspiciosa. Mas o prédio é, por enquanto, isso apenas – um prédio. Não há nenhum desenho de como será ocupado, fazendo da Cidade da Música um símbolo da necessidade de se repensar a gestão e o funcionamento dos nossos teatros. Quem vai gerir o espaço? De acordo com que formato? Quem vai definir as linhas de programação? Como ela vai se relacionar com as temporadas dos outros palcos da cidade?

Mas ninguém sofreu tanto quanto a ópera neste ano que se encerra. Depois de algumas temporadas promissoras, foram poucos os espetáculos, o que leva a crer que o gênero, por aqui, sobrevive por iniciativas isoladas e não por conta de uma política cultural mais ampla que permita seu funcionamento. Assim, sobressaíram-se Manaus, com um festival dedicado à música francesa que sofreu por falta de verbas; Belo Horizonte, com montagens interessantes de Verdi, Villa-Lobos e Schoenberg; e São Paulo, com o Teatro São Pedro, ainda que sem corpos estáveis próprios e uma linha clara e bem definida de programação. Ao menos nos bastidores, as notícias parecem boas – o São Pedro deve ganhar em 2010 uma orquestra própria e um diretor musical. Que seja feliz o ano novo.

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