Ato na Avenida Paulista une artistas contra cortes na cultura do Estado de São Paulo

Ato na Avenida Paulista une artistas contra cortes na cultura do Estado de São Paulo

Artistas de diferentes instituições pedem revisão do corte de 23% no orçamento da Secretaria da Cultura e Economia Criativa determinado pelo governo do Estado; no sábado à noite, músicos lembraram cortes durante concerto na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio

07 de abril de 2019 | 13h08

Artistas de diferentes instituições estão realizando no começo da tarde deste domingo, 7, um ato contra o corte de 23% no orçamento na pasta da Cultura no governo do Estado. Eles seguem neste momento pela Avenida Paulista m passeata em direção ao Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera, um dos projetos ameaçados pela redução. Músicos da Orquestra Jovem do Estado também realizaram protesto ontem na Sala São Paulo, onde hoje pela manhã a Orquestra Jazz Sinfônica fez um minuto de silêncio durante concerto para chamar atenção à redução orçamentária.

O corte de verbas na Cultura determinado pelo governo João Doria vai significar uma redução de R$ 148 milhões na verba para projetos como as Fábricas de Cultura, a Emesp, a Osesp, a Pinacoteca ou o Theatro São Pedro, que amanheceu ontem com a fachada tomada por cartazes pedindo pela manutenção da orquestra e do espaço, que corre o risco de ser fechado.

Em meio aos manifestantes, o maestro João Carlos Martins pediu pela revisão dos cortes. “A indústria, o comércio e a saúde são  o corpo de uma sociedade. Mas a arte é a alma”, disse, mostrando uma entrevista dada em 1967 ao Estado na qual já pedia a boa aplicação das verbas. “Pode haver diálogo, conversas, mas corte, nunca”, afirmou o maestro.

Para o maestro Nelson Ayres, o corte não é orçamentário. “Em todas as áreas, o corte é de cerca de 3%, na Cultura, de 23%. Isso é uma facada nas costas de escolas de música, oficinas, museus e teatros que são referência no Brasil e no mundo”, disse o músico, regente da Orquestra Jovem Tom Jobim, corpo de alunos da Emesp, também sob risco de extinção.

O maestro João Carlos Martins

Na noite de ontem, sábado, dia 6, os músicos da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo levantaram-se em silêncio antes de seu concerto na Sala São Paulo e ergueram cartazes pedindo o fim dos cortes na cultura e chamando atenção para alguns dos principais impactos que a redução proposta pelo governo deve causar.

Também antes da apresentação, o maestro e compositor francês Bruno Mantovani, diretor do Conservatório de Paris, dirigiu-se ao público. “Nós nos colocamos de forma totalmente solidária com a orquestra”, disse. “O Estado de São Paulo é uma das regiões mais ricas do mundo e deveria ter orgulho dos programas que aqui existem, como a orquestra. O orgulho é uma das maiores riquezas do mundo atual. Esperamos que a situação se resolva e que em breve possamos voltar a trabalhar em conjunto”, afirmou – o concerto marcava o aniversário de 10 anos da parceria entre o conservatório francês e a Escola de Música do Estado de São Paulo.

Mantovani dirigiu-se, então, aos músicos. “Meus jovens colegas, uma das maneiras de resistir é levar sua arte para os jovens que conhecemos nas visitas que fizemos esta semana. Façam concertos sorridentes, fortes, engajados. A política não pode vencer o seu sorriso. Vocês são os donos do mundo, não os políticos”.

Na última quinta-feira, a Associação Brasileira das Organizações Sociais de Cultura divulgou um levantamento do impacto que o corte deve provocar nos projetos culturais do estado de São Paulo. Entre eles está o fechamento do Theatro São Pedro e sua orquestra, do Museu Afro Brasil, do cancelamentos de exposições e projetos pedagógicos de instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu da Imagem e do Som, a redução drástica no número de jovens atendidos por projetos como as Oficinas Culturais e as Fábricas de Cultura, demissões de professores, fechamento de vagas em escolas como a Emesp e redução de funcionários.

Também na quinta-feira, cerca de 300 estudantes de música seguiram em passeata da Avenida Paulista até a Assembleia Legislativa pedindo o fim dos cortes. “Estamos na rua para chamar atenção para o fato de que cultura é educação é que a arte é um valor fundamental para a sociedade. Essa é uma luta coletiva. E para nós artistas estar na rua é relembrar que a arte precisa estar perto das pessoas, celebrando esse bem comum”, disse Seham Furlan Ochoa, uma das lideranças do grêmio acadêmico da Emesp. “Eu venho do Rio e percebo que aqui em São Paulo há instituições estabelecidas. Das oficinas de Cultura e do Guri até a Emesp e as orquestras. Quando você realiza cortes como esse, você na verdade está destruindo todo uma cadeia, todo um processo de respeito à cultura e à ideia de oferecer acesso a ela para o cidadão”, completou Firmino Calixto, de 24 anos, um dos idealizadores da movimentação.

Perante o quadro, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa afirma que “tem realizado reuniões com as 18 organizações sociais com as quais mantém contratos. O objetivo é avaliar, definir e mitigar os impactos do contingenciamento sobre as atividades realizadas. Não há previsão de fechamento de instituições e programas.”

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