As duas primeiras semanas do novo Municipal – e o silêncio no São Pedro

As duas primeiras semanas do novo Municipal – e o silêncio no São Pedro

Secretário Municipal de Cultura André Sturm tem insistido na necessidade de "popularização", sem oferecer planos concretos a respeito; no Teatro São Pedro, a data do centenário passou no mais completo silêncio.

João Luiz Sampaio

16 Janeiro 2017 | 14h38

Passaram-se apenas duas semanas desde a troca de guarda na prefeitura. E há ainda muito a ser dito a respeito dos planos elaborados para o Teatro Municipal de São Paulo antes que qualquer avaliação mais completa possa ser feita. Mas essas duas semanas não foram apenas de silêncio. O novo secretário de Cultura André Sturm, em depoimentos aqui e ali, tem deixado entrever o que entende ser o papel de um dos principais teatros de ópera do país. E, nele, não está claro qual o lugar da ópera.

municipal

 

O primeiro posicionamento oficial da nova gestão municipal a respeito do teatro foi feito há dez dias, em uma coletiva de imprensa com a presença do diretor artístico Cleber Papa, do regente titular Roberto Minczuk e do próprio Sturm. O secretário fez um resumo do que lá foi dito em sua página do Facebook. A ideia, diz, é provocar na população “o desejo de fazer da música clássica e do balé um hábito”. “Já pensamos em programas bacanas: o Música no Cinema, que vai fazer a orquestra executar trilhas de cinema, desenhos animados, videogames, o Ballet na comunidade, que pretende levar solos e duos para as 53 bibliotecas espalhadas pela cidade, o Concerto Informal, no qual o maestro vai explicar para os espectadores detalhes de uma orquestra e ainda o Coral Vozes da Cidade, que vai buscar entusiasmar cantores amadores para a atividade musical dentro do teatro”, escreveu Sturm. Ao repórter Bruno Ribeiro, do Estadão, Sturm afirmou ainda que o Música no Cinema tem como proposta “popularizar o teatro para atrair mais gente”.

Sturm voltou a se pronunciar no sábado, em nota publicada pela coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo. Nela, anuncia que no dia 25 de janeiro o Teatro Municipal será palco de uma apresentação do músico Liniker. A atração, ele explica, é parte de um esforço para levar mais público ao teatro. “Não vai ter show de rock, mas também não precisa ficar só na ópera”, diz ele, avisando que a programação terá também artistas como Juçara Marçal e Fabiana Cozza e o bloco Ilú Obá.

Com relação à música de cinema, uma justiça histórica precisa ser feita: não é uma ideia exatamente nova e revolucionária (a Orquestra Experimental de Repertório realizou durante duas décadas a série Cinema em Concerto, criada por Jamil Maluf, no próprio Municipal). Mas, enfim, falemos de ópera. Seria bobagem achar que o teatro não terá uma temporada lírica – ou mesmo que ela não será potencialmente uma temporada interessante. Em algum momento, a agenda, que está sendo montada, será anunciada. Mas é difícil ignorar o fato de que, em seu primeiro anúncio com planos referentes ao teatro, o secretário tenha ignorado completamente o gênero. E que, quando se referiu pela primeira vez a ele, foi para deixar claro que ficar só na ópera ou na música clássica seria, em sua maneira de ver, uma opção redutora.

Ninguém em sã consciência opõe-se à “popularização” de um teatro, da música clássica ou da ópera. A busca de novos públicos ou de uma nova relação entre artistas e a cidade é, aliás, fundamental, um desafio contemporâneo do gênero. É o tal do “desejo de fazer da música clássica e do balé um hábito”, nas palavras de Sturm. Já existe um público maior do que parece supor o secretário – e um público potencial a ser conquistado. A pergunta difícil é: como se faz isso? Para se chegar a uma resposta, antes de mais nada, é preciso saber qual o sentido de um teatro como o Municipal. Formado por conjuntos profissionais e por um departamento do formação – com duas escolas e diversos grupos jovens – o Municipal é potencialmente o grande palco da cidade, um espaço de difusão e reflexão a respeito do passado, do presente e do futuro da música clássica e da ópera. Para isso, no entanto, é preciso reforçar a crença no valor dessas formas de manifestação artística. Afirmar que, para atrair público, o Municipal precisa deixar de lado sua vocação primeira, como o fez Sturm, é o exato oposto – ainda que involuntário. E só reforça a noção de que a ópera e a música clássica serão sempre manifestações de elite, que podem até existir, mas precisam conviver com outras mais acessíveis. É o reforço de uma ideia fácil, antiga, que ignora movimentos importantes de dinamização do setor, em especial com investimento em formação, que sugere novo horizonte ao gênero. É ainda um processo nascente em todo o Brasil: mas seria uma pena o Municipal não participar dele.

Não se trata definitivamente de banir a música popular ou de considerá-la menos importante, um sacrilégio tê-la no palco sagrado do teatro. Isso é bobagem. Mas a tal “popularização” não pode ser um substituto simplista ao desafio de se encarar e respeitar uma vocação histórica do Municipal e atualizá-la à luz de novos tempos. Um teatro de ópera ou uma orquestra sinfônica podem ser símbolos de uma cidade, mobilizar a sociedade, interessar o público – fazendo aquilo a que se propõem. Verdade: passaram-se apenas duas semanas. E os desafios são muitos. Por isso mesmo, é preciso ter paciência – mas também evitar fórmulas fáceis que mal começam a lidar com o tamanho do problema.

 

Enquanto isso, na Barra Funda…

O Teatro São Pedro completou ontem 100 anos. Uma data importante. Marcante. E que passou em branco. Um silêncio duplo. De um lado, a ausência de alguma apresentação que marcasse a data; de outro, a total falta de informações sobre o que será o ano do teatro. Não há temporada anunciada. Há apenas notícias sobre a situação financeira difícil pela qual passa o Instituto Pensarte, organização social responsável pela gestão do teatro, que tem recebido menos verbas do governo do Estado de São Paulo.

Justo. Há a crise, a relação difícil entre OS e governo (que ficou clara nesse momento de cortes). Se isso explica a necessidade de “ajustes”, não justifica o silêncio. Depois dos avanços recentes dos últimos anos, é inaceitável que o Teatro São Pedro entre no ano de seu centenário sem que alguma explicação seja dada ao público e à sociedade. Se falta dinheiro, ao menos deve sobrar transparência a respeito do impacto que os cortes terão na programação e no futuro da instituição. E os riscos que ela corre.

saopedro