Algumas perguntas sobre o Teatro São Pedro

Algumas perguntas sobre o Teatro São Pedro

João Luiz Sampaio

19 de abril de 2012 | 18h42

O site da revista Concerto acaba de divulgar a temporada 2012 do Teatro São Pedro, anunciada hoje após um período de indefinição provocado pela troca de direção musical da casa, com a saída de Roberto Duarte e a chegada de Julio Medaglia. Serão encenadas três óperas: “O Elixir do Amor”, de Donizetti, em junho; “Lakmé”, de Delibes, em agosto; e “Werther”, de Massenet, em novembro. Gostei dos títulos, mas o anúncio traz dados que levantam uma questão no mínimo polêmica no que diz respeito à gestão do teatro.

Roberto Duarte pediu demissão, no começo de março, alegando que seus poderes como diretor artístico haviam sido diminuídos a um ponto que ele considerou intolerável. Segundo ele, com a criação de um conselho artístico, que tem direito de vetar decisões da direção artística – e no qual Duarte não tinha voto –, as temporadas por ele apresentadas foram recusadas sistematicamente. A alegação foi de que títulos como as óperas de Carlos Gomes sugeridas pelo maestro não eram condizentes com a estrutura física do São Pedro e os recursos repassados ao teatro pelo governo do Estado, na casa de R$ 1,5 milhão.

Até aí, tudo bem. Essa, afinal, foi a grande tônica das críticas feitas ao teatro nos últimos tempos. No entanto, o que se seguiu foram decisões também polêmicas. Júlio Medaglia foi convidado a assumir o posto de diretor artístico, que ocupa já há um mês. E, agora, o comunicado com a programação divulgado na revista Concerto traz a informação de que José Roberto Walker será o produtor responsável pelas montagens. Tanto Medaglia quanto Walker faziam parte do conselho artístico. E isso me traz à mente algumas perguntas. Se a função do conselho artístico é coordenar, digamos, o trabalho do diretor artístico, sugerindo caminhos e assinando embaixo, ou não, de suas decisões, é correto que alguns de seus membros passem a ocupar esse posto? Dessa forma, a direção artística rege, em última análise, a si mesma; e então me pergunto: para que serve o conselho? Desse jeito, fica parecendo que foi criado para possibilitar um rearranjo de posições internas. E talvez não tenha sido por acaso que alguns membros tenham deixado o conselho nas últimas semanas, o que mostra que as decisões não foram exatamente unânimes, como quis fazer acreditar o secretário de Estado da Cultura Andrea Matarazzo.

Não há aqui qualquer questionamento da capacidade profissional tanto de Julio Medaglia como de José Roberto Walker. Com o advento, que parece irreversível, das organizações sociais como modelo de gestão, novas questões e estruturas de trabalho têm surgido. Tudo ainda é muito novo e nem sempre sabemos onde estamos pisando. Por conta disso, toda transparência é necessária. Quem, afinal, são os membros do conselho? Qual a hierarquia na gestão? Em que instâncias são tomadas as decisões relacionadas a verbas e programação? São muitas as perguntas. No entanto, no site do Instituto Pensarte, não há nem mesmo a informação de que ele é responsável pela gestão do São Pedro, o que é fato consumado desde o final do ano passado.

Passou da hora, não?

Atualização feita às 12h45 do dia 20/4, sexta-feira:
O site da revista Concerto publicou agora há pouco uma nota enviada por Px Silveira, do Instituto Pensarte. Nela, ele diz que José Roberto Walker não será o produtor da temporada de 2012 do Teatro São Pedro. “Trata-se de uma inverdade que tem sua evidente contestação no fato de que o próprio Theatro São Pedro e sua equipe estão a cargo da produção da referida temporada. A mais, não consta em qualquer momento de nosso relacionamento com o sr. josé roberto walker a autorização ou o entendimento de que ele possa falar pelo theatro, seus projetos, sua administração”. De novo: equívocos desse tipo só reforçam a ideia de desgoverno…

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