Alex Klein e Sinfônica Municipal, o “primeiro amistoso”

João Luiz Sampaio

18 de outubro de 2010 | 19h03

A metáfora futebolística foi oferecida pelo próprio maestro, assim que subiu ao palco da Sala Olido, no centro da cidade, na noite da última sexta-feira. “Este é um primeiro amistoso, e teremos mais alguns ainda este ano. Mas a Copa começa mesmo é no dia 18 de março, no Teatro Municipal”, disse Alex Klein, antes de iniciar seu primeiro concerto como regente-titular da Sinfônica Municipal, posto que assumiu há pouco mais de duas semanas. Sua chegada colocou fim ao desentendimento entre músicos, prefeitura e o maestro Rodrigo de Carvalho, deflagrado em junho deste ano, com cartas e acusações trocadas por todos os lados. É, no entanto, apenas o começo de um novo trabalho – e há muito ainda pela frente. O grupo tocou a abertura de Oberon, de Weber, concerto para oboé e orquestra de Mozart e a Sinfonia Pastoral de Beethoven. Se individualmente a orquestra continua composta por talentos que estão entre os grandes instrumentistas do País, não há como negar que o conjunto sofreu com a rotina de poucos concertos, repertórios nada ousados e ritmo de ensaios entrecortado, causados pelo limbo a que a programação foi relegada com o fechamento do Teatro Municipal para reformar. A Sala Olido, de acústica pouco favorável – e ruídos, como o do ar condicionado, que brigam com qualquer tentativa de pianíssimo por parte da orquestra –, não colabora e dá um certo ar melancólico ao concerto: difícil evitar a sensação de que uma das mais antigas e tradicionais orquestras brasileiras merecia um destino bem melhor.

A regência de Klein é clara, fluida, tecnicamente cuidadosa – e, como solista no Mozart, ele demonstrou o quanto é musical. Características como essa serão fundamentais na reconstrução da sonoridade do conjunto, com uma programação mais sólida e ousada que aos poucos devolva o brilho à atividade da orquestra. Restam, ainda assim, algumas perguntas. Klein tem pouca intimidade com o repertório operístico que, afinal, é fundamental na atividade da sinfônica de uma casa de ópera. Mais: a reabertura do teatro coincide com o desejo de transformá-lo em uma fundação o que, ao menos em teoria, deve instituir novos mecanismos de trabalho e produção. Estarão eles já em vigor em março, quando o teatro deve ser reaberto? Como será montada a programação do centenário, que o Municipal completa em setembro do ano que vem? Em entrevista recente ao “Estado”, Klein já se mostrou ciente do tamanho do desafio que envolve sua gestão à frente da Sinfônica Municipal. O aplauso aberto dos músicos ao seu solo no concerto de sexta; a presença do secretário Carlos Augusto Calil na plateia; o sorriso na expressão dos músicos – todos esses são dados auspiciosos, que justificam certo otimismo. Porém, uma nova fase na vida artística do Municipal e sua orquestra profissional é, neste momento, mais desejo do que fato concreto.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: