“A Valquíria” no Teatro Municipal: brasileira e universal

“A Valquíria” no Teatro Municipal: brasileira e universal

João Luiz Sampaio

20 de novembro de 2011 | 14h46

As óperas de Richard Wagner são um caso à parte no repertório operístico. Não são necessariamente mais populares do que suas primas italianas ou francesas. Mas, quando sobem ao palco, títulos como “Tristão e Isolda” ou “O Anel do Nibelungo” movimentam expectativa que extravaza o universo da ópera, ainda mais quando ficam tanto tempo longe de um palco, como aconteceu com “A Valquíria”, segunda parte do “Anel”, que voltou na noite de quinta ao Teatro Municipal, após mais de 50 anos. Em sua complexidade e tamanho – quatro óperas em um total de quase 16 horas de música – o “Anel” é parte indiscutível da tradição cultural do ocidente: bebeu em fontes como as sagas mitológicas e o pensamento de Schopenhauer, motivou textos de autores como Nietzsche e Bernard Shaw, misturou-se à história com a apropriação que sofreu do Terceiro Reich, estabeleceu parâmetros para o conceito, ainda hoje atual, de “obra de arte total”. Por tudo isso, estabelecer uma produção que respeite o original e ao mesmo tempo o reapresente de maneira viva e significativa para nossa cultura é um enorme desafio, vencido pelo diretor André-Heller Lopes e sua equipe, em uma “Valquíria” brasileira e, ao mesmo tempo, universal.

Na concepção de Heller-Lopes, o primeiro ato se passa em um apartamento da classe média urbana e o terceiro, em um campo no qual a cavalgada das valquírias evoca as Cavalhadas, recriação abrasileirada das batalhas medievais realizada anualmente em Pirenópolis, no interior de Goiás. Em ambos os momentos está sugerido o diálogo da tradição europeia com a cultura brasileira, mas é o segundo ato, no qual a entrada do Valhala, a terra dos deuses, transforma-se em uma sala de ex-votos de Aparecida do Norte, que oferece o eixo fundamental da dramaturgia do diretor. Ao trabalhar sobre personagens e temas da mitologia, Wagner investiga a relação do homem com o poder, com Deus, consigo mesmo. Tudo aquilo que o anel oferece a quem o controla, diz o diretor, é menos importante do que a maldição que ele carrega. O poder, então, se opõe ao sentimento. E está estabelecido assim o diálogo com o sincretismo do povo brasileiro, em uma sala de ex-votos que evocam ao mesmo tempo a crença cristã, a fé em Deus – e o paganismo que a relativiza. Assim, o diretor parte do universo de Wagner, que revela conhecer profundamente, para repensá-lo à luz de uma outra cultura, em um espetáculo eficiente tanto em termos simbólicos quanto narrativos, ponto alto da programação dos últimos anos.

Vocalmente, a “Valquíria” do Municipal teve um elenco homogêneo e de alto nível: o Siegmund comovente de Martin Müehle; a Sieglinde frágil de Lee Bisset; a intensidade da Fricka de Denise de Freitas; o Hunding autoritário de Gregory Reinhart; o Wotan sensível e inteligente musicalmente de Stefan Heidemann; a Brunhilde eficiente de Janice Baird; as oito valquírias, com destaque para Keila de Moraes, Adriana Clis e Lidia Schaeffer. O ponto alto, no entanto, foi a regência de Luiz Fernando Malheiro que, após um primeiro ato um pouco frio, estabeleceu uma narrativa de enorme intensidade dramática, atenta a momentos-chave do discurso musical, como o monólogo de Wotan no segundo ato, o dueto de Brunhilde e Siegmund ou a cena final, a música do adeus e do fogo mágico. A pergunta, agora, é se esta “Valquíria” credencia o Municipal para um “Anel” completo, a ser realizado a partir do ano que vem. Cenicamente, seria estimulante ver o diretor André Heller-Lopes desenvolver o conceito aqui apresentado nas demais óperas do ciclo. Em termos musicais, um desempenho menos errrático da Sinfônica Municipal seria desejável. Talentos individuais, no entanto, sobram na orquestra – e, nesse sentido, um “Anel” poderia simbolizar, enfim, o comprometimento artístico com um projeto a longo prazo que tanta falta tem feito ao Teatro Municipal.

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