“O Caso Makropulos”, de Janácek, ou a parábola checa da morte que liberta

João Luiz Sampaio

25 de outubro de 2010 | 21h06

RIO DE JANEIRO

Como manter-se jovem aos 300 anos de idade?, pergunta-se Emilia, a personagem central de O Caso Makropulos, de Janácek. A longevidade se deve a uma poção tomada séculos antes, mas tem seus efeitos colaterais. “O que vale a pena na vida? Nada, realmente nada”, lamenta a cantora – afinal, o tempo, ou a finitude que ele sugere, é que dá a medida do sentido da vida. Sem ela, como fazer? Como viver sem a certeza da morte? Essas são algumas das questões estimulantes colocadas pela ópera de Janácek, que subiu pela primeira vez aos palcos brasileiros em concerto cênico na noite de sábado, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O compositor checo (1854- 1928) é uma descoberta relativamente recente dos grandes teatros de ópera que , ao montar suas obras, revelaram um compositor dono de linguagem bastante pessoal na busca por caminhos para o gênero nas primeiras décadas do século 20, dominadas por Puccini. O Caso Makropulos é baseado em romance de Karel Capek. Narra a história da cantora Emilia, que surge em um escritório de advocacia para esclarecer pontos de certa disputa por uma herança; sua presença atiça desde desconfiança até o desejo de jovens pretendentes, levando à descoberta de que ela, na verdade, vive há três séculos. O enredo se presta à discussão de temas como a relação do homem com o tempo, a vida, a morte – e as convenções sociais por ela gerada. O ponto de partida fantasioso dá margem a um desfile de grandes cenas, como aquela na qual o conde reconhece em Emilia uma antiga amante cigana – ela assume várias personalidades ao longo da vida -; o desdém com que rechaça avanços amorosos de seus pretendentes; ou o reencontro com a fórmula da poção bebida na adolescência. Em todas elas, há um humor nunca óbvio, sempre repleto de melancolia ou mesmo certo prazer resignado. Apesar do grande elenco (composto por brasileiros como Savio Sperandio, Carolina Faria, Sergio Weintraub e Randal de Oliveira, em boas atuações) a ópera é mesmo de Emilia, interpretada pela alemã Gun-Brit Barkmin, que, boa atriz, explora os diversos coloridos vocais sugeridos pela escrita de Janácek. Funcionou bem a concepção cênica de Carla Camurati, com poucos elementos, ressaltando a trama sem interromper sua fluência. À frente da Petrobras Sinfônica, o maestro Isaac Karabtchevsky construiu interpretação atenta aos contrastes entre passagens fortes e outras mais líricas, nas quais soube também encontrar cores intermediárias, como na cena final, em que Emilia escolhe não tomar novamente a poção e, consequentemente, opta pela a morte – única maneira de celebrar uma última vez a própria vida.

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