A música segundo Ben Zander

A música segundo Ben Zander

João Luiz Sampaio

09 de março de 2009 | 14h00

Diz o ditado que um otimista não passa na verdade de um pessimista mal informado. Em resposta, diria o maestro Benjamin Zander: “Um cínico é simplesmente uma pessoa apaixonada com medo de se desapontar novamente”.
Aos 70 anos, Zander é um dos principais “comunicadores” do mundo da música clássica. Está nos EUA esta semana para uma série de concertos com a Filarmônica de Boston, que completa 30 anos. E deu uma entrevista ao Boston Globe sobre seu trabalho com o grupo e suas visões sobre o cenário artístico.

O maestro Benjamin Zander

Zander é uma figura interessantíssima. Desde 2002, é palestrante convidado do Fórum Mundial de Davos, onde costuma tecer relações entre música, juventude e relações internacionais. Além disso, seus concertos costumam aparecer em programações de rádio e TV. E mesmo suas gravações, em especial a série dedicada a Mahler, costumam trazer um CD extra em que ele conversa com o ouvinte sobre o repertório executado, as muitas possibilidades de interpretação, as escolhas feitas. Em 2005, ele esteve no Brasil e conversamos sobre a tão falada morte dos clássicos:

“Nunca duvidei que a música clássica é um direito de nascença de todas as pessoas – assim como a natureza, os esportes, a comida, o sexo. Isso não quer dizer que todos amem os esportes ou amem estar em meio à natureza, mas é difícil resistir a esse prazer se você consegue encontrar um guia entusiasmado que explique as regras e envolva você em seus mistérios.”

“Veja, o regente não faz som nenhum. Seu poder está em dar poder a outras pessoas. Minha atenção está nos músicos e no quão eficiente eu sou na hora de torná-los os mais expressivos e alegres possível. A maioria das situações da vida nos levam em direção à competição – temos a sensação de que não há suficiente para todo mundo. Mas em uma sinfônica, cada voz precisa ser ouvida para se criar um todo harmonioso. O modo como você consegue fazer com que cada voz seja ouvida em suas máximas possibilidades é a essência da ideia sinfônica.”

Para o “Boston Globe”, ele diz:

“Sou como um vigário. Preciso garantir que meu público tenha uma boa semana e esteja de volta no próximo domingo. E acho isso totalmente natural. Não foi algo que decidi fazer intelectualmente. Quer dizer, o que mais posso fazer? Ficar esperando no camarim? Conheço a peça, nós a ensaiamos e estamos prontos para compartilhar todo esse processo com a plateia” (sobre a prática de fazer palestras antes dos concertos)

O que Zander sugere, enfim, é que o essencial para a sobrevivência dos clássicos é o cuidado em manter aberta a porta entre eles e a plateia. A fórmula parece simples perante o universo de problemas – diminuição de público, investimento, repercussão, etc – que rondam a vida das orquestras. Mas, às vezes, é disso mesmo que precisamos: de alguém que nos leve de volta ao princípio/sentido de tudo.

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