A lua de mel acabou

João Luiz Sampaio

01 de março de 2010 | 13h26

Em 2008, dois casamentos musicais entre maestros e orquestras foram anunciados com festejos nos Estados Unidos. Na Califórnia, o jovem noivo Gustavo Dudamel assumia, inesperadamente, o compromisso com a Filarmônica de Los Angeles, surpreendendo o mundo da música internacional; e, na costa leste, a Filarmônica de Nova York não ficou atrás e foi atrás de um antigo conhecido, filho de família boa e conhecida, que cresceu ao lado dos pais, músicos do grupo, nos bastidores da orquestra.

Desde o final do ano passado, no entanto, a crítica começou a observar um pouco mais objetivamente o trabalho dos dois. Alex Ross, na “New Yorker”, fez reparos à estreia de Dudamel à frente da filarmônica, ressaltando sua opção pela segurança na hora de enfrentar o grande repertório. Dudamel transformou-se em fenômeno midiático tão  grande que fazer qualquer tipo de reparo a seu trabalho virou pecado capital nos círculos musicais, que costumam adorar vilões e mocinhos e esquecer que o mundo é cinza. Ross não cai na armadilha. O que diz é que, à frente de uma orquestra experiente – e acostumada a experimentações depois dos anos sob a direção de Esa Pekka-Salonen –, o maestro aos poucos vai precisar  se soltar e ganhar mais segurança, ou então suas leituras vão ficando para trás, se aproximando a modelos antigos – daí a comparação de sua interpretação de Mozart, por exemplo, com o de Herbert Von Karajan.

Já Gilbert foi tema de um artigo de ontem no “New York Times”, assinado pelo crítico-chefe Anthony Tommasini. Ele, por enquanto, tem gostado do trabalho desenvolvido nos concertos pelo maestro. Mas reclama abertamente: era de se esperar que o primeiro regente americano em quarenta anos a assumir a orquestra fosse ter a preocupação em divulgar ao máximo a obra de autores do país. Há algumas coisas interessantes, ele escreve. Mas, no geral, tanto Dudamel em Los Angeles como Tilson Thomas em São Francisco ou mesmo Muti em Chicago acabam de lançar temporadas muito mais ricas no que diz respeito ao repertório norte-americano. Tommasini fala com Gilbert sobre o assunto e ele reconhece a “falta” – mas insiste que é fundamental ter contato com a música de outros países e que pensa sua atividade frente à filarmônica não ano a ano mas, sim, a longo prazo, explicando que bons projetos devem aparecer nos próximos anos.

Por aqui, o novo diretor artístico da Osesp Artur Nestrovsky deu uma entrevista à coluna Direto da Fonte na qual conta que a orquestra vai lançar um disco por ano dedicado a um autor brasileiro, a partir de 2012. É sensacional saber que a série começa com Gilberto Mendes e tem Almeida Prado e Willy Corrêa de Oliveira – são autores muito importantes que viveram tempo demais à margem da vida musical brasileira e precisam ter o espaço e reconhecimento que merecem. Mas bem que a Osesp poderia encampar também a missão de garimpar na nova geração de compositores nomes interessantes, que apontem caminhos estéticos possíveis, nascidos em uma sociedade bastante diferente e em constante transformação . Tendo acompanhado o cenário como crítico, Nestrovsky poderia ser o cara ideal para a tarefa.