A Filarmônica de Goiás está morrendo, dizem músicos da orquestra

A Filarmônica de Goiás está morrendo, dizem músicos da orquestra

Segundo artistas, baixos salários têm sido fator de tensão e ansiedade. “A orquestra, enquanto instituição, está morrendo de uma forma ainda não perceptível para as pessoas que assistem aos nossos concertos, mas já percebida por nós”, diz carta escrita pelos integrantes do grupo

João Luiz Sampaio

06 de maio de 2022 | 22h20

Nas últimas semanas, a Filarmônica de Goiás tem recebido elogiosas críticas mundo afora por conta de seu novo disco, que abre uma série dedicada às sinfonias de Claudio Santoro, lançada pelo selo Naxos.

“A Filarmônica de Goiás sob a regência de Neil Thomson tem todas as razões para ficar orgulhosa de seu desempenho”, anotou o crítico da revista Classics Today. Na Gramophone, a atuação do grupo foi definida como de “primeira classe”. No Le Monde, elogios à precisão da orquestra.

Em casa, no entanto, o elogiado desempenho artístico não tem evitado uma crise que aos poucos vai esvaziando a orquestra. Músicos tem deixado o grupo por conta dos baixos salários, motivo pelo qual também não tem sido fácil preencher vagas abertas. O valor pago é muito menor do que o praticado em outras cidades do país. Durante recente sessão de gravação, um dos músicos precisou ser socorrido após passar mal por não ter conseguido pagar pelo café da manhã (os demais integrantes da orquestra fizeram uma vaquinha para ajudá-lo).

A Filarmônica de Goiás tem desenvolvido um importante trabalho no cenário nacional, com o investimento tanto no repertório nacional quanto em obras contemporâneas. São várias séries de concertos, como o projeto Raízes, com apresentações em diferentes cidades do estado.

Em 2020, por conta de um problema burocrático, a orquestra desapareceu. Na falta de um sistema de gestão eficiente, os músicos atuavam sob contratos provisórios, renovados sistematicamente – prática que o ministério público e o tribunal de contas de Goiás considerou ilegal. Sem contratos, sem salários, sem orquestra.

Orquestra Filarmônica de Goiás durante concerto em Goiânia (Divulgação)

Depois de uma movimentação do meio musical, o governo estadual, chefiado pelo governador Ronaldo Caiado (União Brasil) recontratou os músicos. Mas ofereceu a eles um salário 30% menor do que antes. Um chefe de naipe que ganhava R$ 4.900 em 2018 agora recebe R$ 3.800; músicos de fila, por sua vez, tiveram o salário reduzido de R$ 4.400 para R$ 3.610.

Algumas comparações. Um chefe de naipe na Osesp ganha R$ 18.291,90; na Filarmônica de Minas Gerais, R$ 12.276,38; na Sinfônica de Porto Alegre, R$ R$ 11.527.48; na Orquestra Sinfônica da Bahia, R$ 9.615,90; na Amazonas Filarmônica, R$ 7.940. No caso de um músico de fila, os valores são R$ 3.610 (Goiás), R$ 14.901.70 (Osesp), R$ 10.145,91 (Minas), R$ 8.402,13 (Porto Alegre), R$ 7.710,45 (Bahia) e R$ 7.709,64 (Amazonas). O salário de um músico profissional em Goiás só é maior do que o valor da bolsa concedida a alunos da Academia da Osesp ou da Orquestra Jovem do Estado: R$ 3.800 contra R$ 2.055 (mais vale-refeição) e R$ 2 mil (valor do edital de 2020), respectivamente. *

Independentemente da comparação com outros grupos, ainda que ela seja bastante representativa, a redução de 30% no salário dos músicos em Goiás, vale lembrar, se dá em um contexto de aumento da inflação, o que torna a defasagem ainda maior. E que os músicos não recebem valores para manutenção dos instrumentos, como acontece em alguns outros grupos.

Carta

A situação levou os músicos da orquestra a escrever uma carta endereçada à Profa. Dra. Flavia Maria Cruvinel, Pró-Reitora Adjunta de Extensão Cultural da Universidade Federal de Goiás, uma das instituições responsáveis pela interlocução da orquestra com o governo, na qual expõem as dificuldades atuais.

O texto agradece o apoio recebido até agora: “Precisamos dizer que estamos gratos e felizes com o apoio que a orquestra tem recebido de sua parte. (…) Todos estamos satisfeitos com o entusiasmo que sua administração tem demonstrado para com a orquestra.”

Mas não há meias palavras. “É preciso pontuar que o nível de execução dos músicos está completamente desproporcional ao salário que recebem. E este aspecto tem sido um fator de tensão e ansiedade constante. Estamos chegando a um ponto em que a situação que vivenciamos está se tornando insustentável. Diríamos até que a orquestra, enquanto instituição, está morrendo de uma forma ainda não perceptível para as pessoas que assistem aos nossos concertos, mas já percebida por nós.”

Os motivos vêm em seguida. Os salários baixos têm feito com que haja um “fluxo lento, mas constante, de músicos deixando a orquestra”. “Cada vez que outra orquestra abre concurso, nossos melhores músicos sempre se candidatam, pois elas oferecem salários melhores e estrutura mais sólida. Já perdemos vários colegas de alto valor musical e técnico por esta razão. Nos últimos anos, mais de vinte músicos deixaram a OFG, motivados, principalmente, pela defasagem salarial. Eles não queriam necessariamente deixar a OFG, mas não conseguem ter uma vida digna com os salários que recebemos”, diz o texto.

E continua: “O altíssimo nível de execução é um dos poucos fatores que mantém os bons músicos na orquestra. Sem esse incentivo não haverá nenhuma outra consideração para que permaneçam em Goiânia. E este fator único gera este estado de ansiedade entre nós, os músicos. Como podemos nos preparar para concertos e gravações com a constante preocupação sobre como continuar provendo por nossa sobrevivência?”

A carta traz uma informação importante – e alarmante quando se tem em vista a qualidade e a importância do primeiro disco dedicado às sinfonias de Santoro. A iniciativa faz parte do projeto Música do Brasil, fruto de uma parceria firmada entre o Itamaraty, o selo Naxos e instituições musicais brasileiras.

Diz a carta: “A situação que descrevemos é grave e fere, frontalmente, a alínea VI, do item 5.2, da Cláusula quinta – Das atribuições das Partes, constante do Termo de Cooperação Técnica celebrado entre o Ministério das Relações Exteriores e o Estado de Goiás, a saber: VI. garantir a manutenção da equipe técnica em quantidade e qualidade adequadas ao bom desempenho das atividades. (…) Temos de garantir que a orquestra se mantenha em um nível bom o suficiente para estas gravações.”

Há outras questões em que a carta da orquestra não toca. Uma delas tem a ver com a expectativa com relação ao grupo. A orquestra é gerida pelo Instituto Tecnológico de Goiás (ITEGO) em Artes Basileu França, que por sua vez assinou convênio com a Universidade de Goiás.

O Estadão apurou que, durante uma cerimônia em que estavam presentes representantes da universidade e do Basileu França, afirmou-se que a conexão entre a escola e a filarmônica possibilitaria, em um futuro próximo, que o grupo não precisasse mais de músicos de fora do estado, tornando-se “100% goiana”. A afirmação gerou desconforto entre os artistas, que preferiram não se pronunciar publicamente sobre a questão.

*O texto foi atualizado para corrigir o valor da bolsa oferecida aos aluno da Academia da Osesp

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.